quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Caso da Emergência

Pessoal, larguem tudo e vão ler Backlash. É uma aula sobre jornalismo, sobre como a mídia pode ser preguiçosinha e tendenciosa, sobre como a gente pode analisar uma notícia e verificar se ela tem fundamento ou não. E sobre feminismo também, hehe.

Tá aqui a versão digital do livro (presentim de natal do http://www.midiaindependente.org/). Está em português, é uma delícia de ler, e além do mais é de graça!

(Aviso aos navegantes: trata-se de obra esgotada no Brasil. Assim que houver uma nova edição, é só me avisarem que eu tiro o link.)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Caso da Aparência Atual

Eu digo que não uso mais maquiagem, e as pessoas imediatamente passam a achar que eu vou andar esfarrapada. Traje de luxo sendo, claro, moletom e havaianas, para usar em casamentos.

Não é bem assim. No início do meu feminismo prático, eu tive um momento de iluminação sobre um mundo no qual a aparência não importaria e seríamos julgados por nossos eus interiores (aquele que cosmético nenhum dá conta de embelezar). Depois achei que o planeta não estava pronto para isso. E me conformei em seguir os padrões estéticos exigidos do homem ocidental.

Roupa limpa, não-amassada, nem muitos números acima ou abaixo do seu. Sapatos confortáveis de cores neutras. Unhas limpas e curtas (corto umas duas vezes por semana). Cabelo curto (não muito, por enquanto) e penteado. Vestimentas que não apertem, piniquem, restrinjam os movimentos ou prendam a circulação.

Continuo parecendo mulher. Continuo tendo peito (pouco), quadril (muito) e voz fina. E também continuo sem entender por que cargas d'água é tão importante reconhecer o gênero de uma pessoa a metros de distância. É pra discriminar melhor?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Caso das Mães Atormentadoras

A Georgia deixou um comentário no último post dizendo que ou eu não tenho mãe ou moro muito longe dela. Porque quem mais a perturba na questão do "se cuidar" é sua mãe. Ela acertou em cheio: eu moro mesmo longe da minha mãe. Se eu morasse perto, minha guinada para o feminismo prático seria menos indolor. Quando escrevi o post otimista, havia acabado de chegar à casa dos meus pais para passar duas semanas. Depois de um contato mais prolongado com a mamã, a coisa mudou um pouco de figura.

Minha mãe continua achando que eu estou "desleixada", ou "largada". Que "a aparência é muito importante nos dias de hoje". Que "radicalizar é ruim".

Perguntei se ela percebia que eu estava feliz. Ela hesitou um momento e me lascou um "mas tenho medo que você se decepcione, porque não dá para mudar o mundo". Eu respondi que, se eu não fizesse nada, o mundo ia ficar do mesmo jeito. Se eu fizesse e o mundo não mudasse, nada se perdia, e além do mais eu estava me divertindo no processo.

O discurso dela é contraditório. Ela diz que minhas teorias só servem pra mim, que já tenho emprego, sou casada e tenho boa aparência (ué, mas eu não sou desleixada?). Eu rebato dizendo que, se eu, com todas essas vantagens, não estiver disposta a desprezar as exigências sociais, quem vai estar?

Mas, enfim, eu converso com ela a título ilustrativo. Porque estou segura e serena em minha decisão e não preciso convencê-la. Uma coisa é explicar; outra é querer que ela concorde. Eu sempre quis a aprovação dos meus pais (quem não quer?), mas um dia descobri que ela não é exatamente necessária. Sou idependente financeiramente: posso fazer as minhas próprias escolhas e bancá-las (em mais de um sentido). Sem briga e sem conflito. Minha mãe reclama, eu sorrio, e pronto.

Chegar nesse nível zen, claro, não é fácil. Eu, por exemplo, gastei trinta e três anos.

Desejo boa sorte à Georgia. E lembro que o jeito mais fácil de encerrar uma discussão é dizer à outra parte: "Você tem razão". E continuar fazendo tudo do jeito que você bem entender.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Caso da Aparência, Atualização

* Fui a um dos encontros de preparação para o intercâmbio profissional maquiadinha (batom e olheiras escondidas). Ninguém percebeu, comentou ou me tratou de maneira diferente.

* Depois que cortei o cabelo, nas férias, encontrei colegas de trabalho com os quais tenho contato ocasional. Eles me olharam com cara de "alguma coisa está diferente em você, mas eu não sei o que é".

* Reencontrei parentes que não me viam há algum tempo. Eles nem registraram o cabelo curto.

Resumo da ópera: a pessoa que mais se importava com a minha aparência era eu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Caso dos Respeitos, Mais Um

Discutimos e discutimos, mas não sei se tocamos em um ponto importantíssimo: há idéias e idéias, e ideologias e ideologias.

Respeitar uma pessoa feminista é muito diferente de respeitar uma pessoa machista. Respeitar uma pessoa "pró-escolha" é muito diferente de respeitar uma pessoa "pró-vida". Respeitar um escravocrata é muito diferente de respeitar um abolicionista.

O feminismo quer que todo mundo tenha direitos; o machismo quer que os homens tenham prerrogativas só para eles. O movimento "pró-escolha" acredita que cabe à mulher decidir se aborta ou não; o "pró-vida" decide que ela não pode, e pronto. A escravatura... não preciso completar.

Existem ideologias includentes e excludentes, e eu só respeito as includentes. Não me venham dizer que as religiões que pregam a submissão das mulheres são equivalentes às que não pregam (tem alguma?). Que as culturas que obrigam à circuncisão feminina são tão válidas quanta as que consideram que as mulheres são donas de seus próprios corpos. Direitos humanos, pô!

Eu "não tenho de respeitar" as escolhas alheias coisa nenhuma. Quando a escolha alheia for espancar os filhos, aceitar passivamente estelionato religioso (dizerem que você não arruma emprego porque não doou o suficiente para Deus é o quê?), desprezar pessoas de raça diferente, a pessoa pode estar feliz o quanto for: eu não concordo, não aceito, não respeito e acabou-se.

* * *

Eu tinha botado "intervenções cirúrgicas desnecessárias" na lista negra. Aí percebi que, se eu acho que se o corpo é da pessoa, inclusive pra ela se matar se quiser, não posso deixar de respeitar a opção por botox e silicone. Esses vão ficar na lista "não acho bom, não valorizo e não aplaudo". Mas respeito, né.

Acho que um bom sinal de que as idéias da gente prestam é o fato de elas geraram situações que não nos agradam individualmente, como no exemplo acima. Porque a idéia não é criar um mundo que eu pessoalmente ache fofo, mas um lugar de justiça e igualdade pra todo mundo.

O Caso dos Filmes

Depois que a gente toma a pílula vermelha da Matrix, muitas coisas que antes passavam batido começam a incomodar. Na verdade, como a gente vive em uma sociedade machista, o surpreendente é que alguma coisa não incomode, né?

Nesta semana vi um filme chamado "The Boat that Rocked". A idéia é legal - um barco/rádio-pirata que transmite rock 24 horas por dia, na Inglaterra dos anos 60. Os locutores são doidões e divertidos, e vários atores saíram de seriados meio desconhecidos a que eu gosto de assistir. Tinha tudo para agradar, certo? Só que tem um detalhe: mulheres não são admitidas no barco. Para variar, elas ficam à margem da diversão. Elas só servem para fazer comida (tem uma cozinheira lésbica na tripulação) e sexo com os locutores, muitos dos quais têm uma aparência seriamente repelente. E é claro que essas últimas, que são trazidas numa lancha e consideram os DJs heróis do rock, são todas novinhas e lindas.

No universo do filme, milhões de ingleses escutam a rádio-pirata. Mais da metade são mulheres. Nesse universo imaginário, será que não teria nem uminha que também gostaria de ser locutora? Os roteiristas acham que não. A única ambição delas é transar com os DJs.

O interessante é que o filme tem fumaças de libertário. A rádio vai contra o "sistema", como demonstrado pelas tentativas governamentais de fechá-la. O rock é revolucionário. Pena que a revolução chega manca para as mulheres - a única liberdade que elas conquistam é a de fazer sexo com seus heróis.

Ontem fui assistira a "Lua Nova". E sabem que gostei bem? Quando eu não estava ofuscada pelos músculos do lobisomem Jake (igualzinho à Bella, que perde a fala umas boas três vezes com a visão do Jacob sem camisa), fiquei pensando como era legal a disputada personagem principal não ser uma gostosona decotada. Tudo bem, o vampiro Edward é chegado dela por causa de seu sanguinho saboroso, mas o Jake e o coleguinha de escola, cujo nome me foge, gostam dela como pessoa mesmo. E a Bella é "gente que faz": ela toma decisões e as executa. Confesso que ela é mais corajosa que eu, que nunca na vida ia me jogar daquele penhasco altíssimo. Estou desconfiada que, na questão "women-friendly", "Lua Nova" ganha mais pontos do que "The Boat that Rocked".

PS: Durante o filme, algumas dúvidas me atormentaram: por que vampiros têm de ser tão afetados (sim, Volturi, estou falando com vocês)? Por que a Bella Swan pisca tanto o olho e franze tanto a testa? Por que a realeza vampiresca é formada por três vampiros homens e nenhuma mulher? Por que o diretor achou que fosse uma boa idéia botar o torso pálido e magro do Edward na telona? Por que a Bella insiste em ficar com o vampiro cabeçudo e gelado, que faz careta toda vez que vai beijá-la (é ele "se controlando", eu sei, mas não é agradável) e não com o lobisomem quentinho e gostosão que a adora?

PS 2: Só pode ser porque a Bella já sabe: o Jacob tem de ficar é comigo (licença poética, Maridinho. Licença poética.).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Caso do Respeito

A Setembro faz comentários pertinentes que eu não consigo responder em poucos caracteres. O jeito é fazer um post!

"...conheço pessoas que seguem esses esquemas pré-estabelecidos e são muito felizes! MESMO! É difícil de aceitar, certas vezes, mas todo mundo tem o direito de fazer o que quiser!! Quem quiser se rebelar, ótimo! Quem está feliz como está, ótimo! Acho muito chato quando pessoas que mudaram algum comportamento, ou forma de agir, e começam a criticar outras que estão felizes com a atual situação! Cada um tem que saber o que é felicidade. Nem sempre o que me faz feliz faz outra pessoa feliz. Aceitar diferenças é muito, mas MUITO, mais difícil que qualquer outra coisa!!!"

Eu também acho que aceitar diferenças é muito difícil. Pra mim, é um trabalho diário, porque eu costumava achar que sabia o que é melhor para os outros. Respeito às diferenças, esse é meu novo lema. Entretanto...

Entretanto, às vezes eu acho que as pessoas estão tomando decisões ("fazendo o que querem") sem estarem conscientes de todas as variáveis envolvidas. E aí eu vou lá dar a minha opinião. Vou mesmo. Isso fica claríssimo quando se trata de questões feministas. Porque elas envolvem olhar o mundo de um outro jeito (tipo sair da Matrix).

Às vezes as pessoas me acham chata mesmo. Mas isso não me ofende. Ao contrário - chata é uma pessoa que incomoda. Que muda as coisas de lugar. Que mostra verdades inconvenientes. E, de vez em quando, convence alguém.

Concordo que cada um tem de saber o que é felicidade. Mas questionar a felicidade alheia não significa destruí-la. Questionar tem o sentido de fazer perguntas, mesmo. Eu gosto de trocar idéias e opções. E também posso ser convencida.

E também tem aquela coisa: que diferenças que a gente deve aceitar? E se a pessoa for racista? Machista? Fanaticamente religiosa? Neo-nazista? É complicado, né?

PS: ah, eu não critico as pessoas que estão felizes com a atual situação. Não, eu converso com elas e explico porque elas não deviam estar felizes. Vou embora assim que elas começam a chorar.

PS2: brincadeirinha!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Caso das Trocas de Rumo

Então vai fazer dois anos que eu trabalho e o Maridinho estuda. Foi muito tranqüilo e sem trauma nenhum, e eu particularmente adorei: ele tem mais tempo livre, então se ocupou dos afazeres domésticos. Ele diz que a profissão atual dele é dondoco, mas eu acho que madame sou eu, que ando pra cima e pra baixo de chofer conjugal e não tenho preocupação alguma fora do horário de trabalho.

Quando nos decidimos por esse esquema, meu pai estressou um pouco, mas escutou nossas razões e nunca falou mais nada. Na verdade, a mais preocupada foi uma amiga nossa muito querida e meio conservadora. Quando a gente se encontra, ela sempre acha que o Maridinho está meio tristinho. Aí, no dia seguinte, eu pergunto pra ele: meu amor, você anda insatisfeito? E ele me olha com total perplexidade e responde: como assim? Eu estou ótimo!

O que eu quero dizer é que, se eu e o Maridinho fôssemos pessoas agarradas aos papéis que a sociedade gosta de destinar a homens e mulheres, estaríamos muito menos felizes do que agora. Provavelmente ele teria continuado num emprego que não o satisfazia mais. Talvez decidisse terminar a faculdade à noite, e aí a gente só se veria nos finais-de-semana. Se topasse parar de trabalhar para estudar mas não levantasse uma palha em casa, provavelmente eu ficaria ressentida. E de qualquer jeito reclamaríamos da queda de nossa capacidade de consumo, porque afinal gastar não é um direito adquirido?

Não estou dizendo que eu tenho a receita do sucesso. Só estou falando que pode ser que sair da rota programada compense. Às vezes exatamente o que nos dizem que é caminho certo para a felicidade pode virar prisão.

Exemplo 1: quando a gente casou, todo mundo nos dizia para comprar um apartamento. Decidimos alugar, e quando o Leo parou de trabalhar, tínhamos reservas financeiras para uma emergência (que nunca aconteceu). Agora ele está fazendo concurso público e a gente topa ir para qualquer lugar do Brasil, porque não tem nada que nos prenda - nem mesmo um imóvel.

Exemplo 2: tenho um casal de amigos que são profissionais muito bem-sucedidos. Eles têm reclamado muito da rotina e da profissão (não, Chris, não são vocês - vocês não reclamam!), e eu e Maridinho vivemos sugerindo alternativas, mas eles ganham tão bem que fica difícil mudarem de carreira, mesmo não estando satisfeitos com ela.

Estão vendo?

domingo, 13 de dezembro de 2009

O Caso da Renegociação, Conforme a Revista Veja

Por coincidência, logo depois que eu falei da renegociação dos papéis no blogue, li uma reportagem publicada na revista Veja na segunda semana de setembro: "Papai não é Mamãe". A tese da matéria é que o politicamente correto "contaminou" a paternidade, exigindo dos homens um desempenho equivalente ao das mulheres no cuidado com os filhos, só que isso vai contra "os fatos da biologia."

Sério, às vezes eu acho que a Veja está de sacanagem. Fico esperando a/o jornalista gritar "é pegadinha!" no meio de uma página. Porque não é possível, gente!

Primeiro: eu queria saber quantos pais são esses que se sentem pressionados a ter o desempenho equivalente ao das mães. Números, porcentagens? Não tem. Pelo jeito, a revista "identificou" uma "tendência social" (como, mesmo?) e foi "investigar".

Ah, não, desculpe: eles fizeram uma enquete. No site da Veja. Com 820 entrevistados. Suuuper representativo, né? Opa, mas a enquete fala que os pais gostariam de passar mais tempo com os filhos. E que, quando estão em casa, raramente desempenham tarefas tipicamente maternas. Ué, mas eles não são "pressionados" a ter um desempenho equivalente ao das mães? Então a pressão não está produzindo resultado algum, né? (Obs: Mamã sempre disse que jornalista não sabia ler estatística.)

Mas continuemos. O problema de exigir comportamento materno dos pais, segundo a amiguinha Veja, é que tal exigência vai contra a biologia.

Uma piadista, a Veja. A cultura demanda mil comportamentos que vão contra a biologia. Essa não seria a própria definição de cultura? Porque se fôssemos seguir só os nossos instintos a gente estava no mato, cruzando com nossos familiares próximos e baixando o braço em quem nos aborrecesse, tipo os jornalistas de certa revista semanal.

Para comprovar a violação das sagradas leis biológicas, a reportagem prossegue com a seguinte pérola: como os níveis de testosterona (o hormônio da autonomia e da agressão) do homem caem quando ele segura um bebê, isso "reforça a tese de que o natural para um homem é ser provedor e protetor - não um trocador de fraldas". Oi? O que reforçaria a teoria seria o fato do hormônio da briga aumentar. Aí, realmente, os moços iam ser babás meio tensas. Como é o contrário que acontece, isso indica que o homem se adapta à situação de cuidador numa boa.

Aí a matéria continua, com um monte de contradições e tiros no próprio pé. Olha, as pessoas se espantam que aquele papai tenha jeito com as crianças! "O fato é que a maioria estranha quando dos homens desempenham tarefas tradicionalmente maternas. Isso é errado?" pergunta gravemente Veja. "Não", ela mesmo responde. "As regras sociais e culturais não surgem do nada. Elas têm uma origem biólógica, diz um psicólogo evolutivo americano." Ah, a escravidão e as castas estão justificadas então, gente. Origem biológica, né.

Enfim, é uma reportagem preguiçosa e mal-costurada. Quem escreveu bolou uma tese, juntou uns fatos, esqueceu de verificar se os fatos comprovavam a tese (devia ser o contrário, né? Fatos primeiro, tese depois), gastou cinco páginas, ganhou um tapinha nas costas do editor e foi embora.

E como não podia deixar de ser, o texto termina assim: "As mulheres batalharam para ter liberdade e igualdade. Mas, quanto à fraternidade com os homens, convenhamos... Não exija tanto do paizão, mamãe." Porque a culpa é nossa, né? A culpa é sempre nossa.

O Caso dos Comentários

Gente, eu amo comentários. Só tem uma coisa que eu gosto mais do que comentários: comentários longos.

Ando desconfiada que é norma da blogosfera manter os comentários sucintos: se for, é uma regra à qual eu sempre desobedeço. Vou aos blogues alheios e, quando tenho muito o que dizer, escrevo adoidado.

Então, pode ficar todo mundo à vontade para se estender por aqui.

* * *

A minha idéia é responder a todo mundo na caixa de comentários. Às vezes tenho tanto a dizer sobre um assunto que acabo fazendo um post. Enfim: pode demorar um pouquinho, mas eu respondo.