Uma das coisas que vendem para nós, mulheres, é que o fato de a gente ter muito mais opções do que os homens para nos vestirmos é a maior vantagem. Ando achando que não é beeem assim. É verdade que em muitos eventos podemos usar roupas fresquinhas enquanto eles torram no terno. Mas, por outro lado, nos dias frios a gente pena para arranjar um modelito de festa adequado, e eles ficam bem confortáveis.
A questão é que a variedade de opções não significa que possamos escolher livremente como a gente quer se apresentar. Ao contrário: existem montes de regras que precisamos seguir. Da cor que nos favorece à estampa que nos cai bem. Do que está na moda versus o que é tão estação passada. E, o mais ofensivo, o que devemos usar para “disfarçar” nossos “pontos fracos”, sendo que é tudo ponto fraco: muita altura, pouca altura, muito peso, pouco peso, muito peito, pouco peito, muito quadril, pouca cintura, e lá se vai a lista interminável que nos conta como nossos corpos são imperfeitos e como precisamos lutar para melhorá-los. Auto-estima, oi?
(Enquanto isso, os homens não questionam seus corpos. As revistas que eles lêem não dizem para eles que pescoços longos devem ser disfarçados com golas retas e pescoços curtos, valorizados com decotes V. Ou que o corte de cabelo tem de pôr em evidência as maçãs do rosto mas esconder orelhas de abano.)
Como vocês podem ter percebido, eu sou especialista nessas regrinhas. Então eu não estou dizendo que elas são tolas porque não as compreendo. Eu as compreendo muitíssimo bem, obrigada, e já as usei fartamente (em “proveito” próprio e alheio). E agora estou achando que elas são tolas. Porque, de novo, elas demandam tempo e dinheiro e esforço para um resultado, bem, imediatamente satisfatório mas não muito compensador a longo prazo. Porque os homens não têm de se preocupar com isso, e conseqüentemente gastam esse tempo, dinheiro e esforço em coisas no mínimo mais divertidas. Porque, se você perguntar, metade da população mundial (os homens) não liga a mínima se a nossa roupa é tendência (aparentemente, eles só ligam para os decotes e as mini-saias). Quem liga, aplaude, critica e faz listas de certo e errado em revistas são, na maior parte, as mulheres.
Então, de novo, a minha teoria simplificante funciona bem. Se você tem um monte de calças e camisas, ou saias e blusas, que combinam todas entre si, você não tem de quebrar a cabeça toda vez que for sair de casa. Se seus sapatos são confortáveis e básicos, você não tem de se preocupar se as proporções ficaram adequadas ou se você vai ficar muito tempo de pé. E nada impede que todas essas calças e saias e blusas e sapatos sejam lindos na sua opinião e você os adore.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
O Caso da Teoria e da Prática
Ando navegando alegremente pelo meu novo sistema feminista. O interessante é que, quando a gente começa a praticar a reflexão, ela acaba se estendendo para outras áreas. No meu caso, a área que está na berlinda é a do consumo como reflexão de valor. Assim: para as pessoas te considerarem, você tem de ter ao menos um carro X, um apartamento Y, e uns acessórios LV.
(Pausa: acho que isso tem tudo a ver com a relutância de muitas mulheres de se livrarem dos enfeites femininos. Porque cabelão liso, bijoux várias, bolsa de marca e roupa da moda são, em nossa sociedade, sinal de poder financeiro, né? E no Brasil parece que quem tem cara de rico é mais bem-tratado.)
Ando concluindo que isso é uma bobagem. Que ter e ser não andam necessariamente juntos (ou separados). Que se algumas pessoas não quiserem ser minhas amigas por causa disso, então eu também não quero nada com elas, obrigada.
Ando achando que moro em um apartamento grande demais. Que tenho sapatos e bolsas demais. Que minha vida tem coisas demais, e olha que eu sou bem econômica e não muito consumista. (Só livros e fotos de viagem eu nunca acho que são demais.)
Meu novo jeito desapegado de ser funciona muitíssimo bem onde moro, uma cidade do interior sem muitas opções e mais para pobre do que para rica. Só que Maridinho está fazendo concursos, e é muito provável que no curso de 2010 a gente se realoque em uma capital.
Então ficamos pensando em alugar um apartamento menor, não só porque aqui sobra espaço mas também porque em uma cidade grade o aluguel é entre duas e três vezes mais caro. Hoje decidimos trocar de carro (o nosso é um médio, bom para pegar a estrada até BH) por uma versão mais econômica e compacta, depois da mudança. E não precisa nem dizer que pretendo continuar seguindo meu esquema altamente simplificado (inspirado no Maridinho) de moda e beleza.
Entretanto, não deixo de me perguntar como os meus princípios vão se comportar em um ambiente hostil. Será que, em um local de trabalho em que o habitual é tailleur e maquiagem pesada, vou acabar retornando aos cosméticos e acessórios? Será que, em uma cidade onde a norma é a ostentação de riqueza, eu vou começar a achar que carrões e apartamentaços são essenciais à minha felicidade?
Espero que não. Acho que não. Mas tô de olho, ó.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
O Caso da Emergência
Pessoal, larguem tudo e vão ler Backlash. É uma aula sobre jornalismo, sobre como a mídia pode ser preguiçosinha e tendenciosa, sobre como a gente pode analisar uma notícia e verificar se ela tem fundamento ou não. E sobre feminismo também, hehe.
Tá aqui a versão digital do livro (presentim de natal do http://www.midiaindependente.org/). Está em português, é uma delícia de ler, e além do mais é de graça!
(Aviso aos navegantes: trata-se de obra esgotada no Brasil. Assim que houver uma nova edição, é só me avisarem que eu tiro o link.)
Tá aqui a versão digital do livro (presentim de natal do http://www.midiaindependente.org/). Está em português, é uma delícia de ler, e além do mais é de graça!
(Aviso aos navegantes: trata-se de obra esgotada no Brasil. Assim que houver uma nova edição, é só me avisarem que eu tiro o link.)
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
O Caso da Aparência Atual
Eu digo que não uso mais maquiagem, e as pessoas imediatamente passam a achar que eu vou andar esfarrapada. Traje de luxo sendo, claro, moletom e havaianas, para usar em casamentos.
Não é bem assim. No início do meu feminismo prático, eu tive um momento de iluminação sobre um mundo no qual a aparência não importaria e seríamos julgados por nossos eus interiores (aquele que cosmético nenhum dá conta de embelezar). Depois achei que o planeta não estava pronto para isso. E me conformei em seguir os padrões estéticos exigidos do homem ocidental.
Roupa limpa, não-amassada, nem muitos números acima ou abaixo do seu. Sapatos confortáveis de cores neutras. Unhas limpas e curtas (corto umas duas vezes por semana). Cabelo curto (não muito, por enquanto) e penteado. Vestimentas que não apertem, piniquem, restrinjam os movimentos ou prendam a circulação.
Continuo parecendo mulher. Continuo tendo peito (pouco), quadril (muito) e voz fina. E também continuo sem entender por que cargas d'água é tão importante reconhecer o gênero de uma pessoa a metros de distância. É pra discriminar melhor?
Não é bem assim. No início do meu feminismo prático, eu tive um momento de iluminação sobre um mundo no qual a aparência não importaria e seríamos julgados por nossos eus interiores (aquele que cosmético nenhum dá conta de embelezar). Depois achei que o planeta não estava pronto para isso. E me conformei em seguir os padrões estéticos exigidos do homem ocidental.
Roupa limpa, não-amassada, nem muitos números acima ou abaixo do seu. Sapatos confortáveis de cores neutras. Unhas limpas e curtas (corto umas duas vezes por semana). Cabelo curto (não muito, por enquanto) e penteado. Vestimentas que não apertem, piniquem, restrinjam os movimentos ou prendam a circulação.
Continuo parecendo mulher. Continuo tendo peito (pouco), quadril (muito) e voz fina. E também continuo sem entender por que cargas d'água é tão importante reconhecer o gênero de uma pessoa a metros de distância. É pra discriminar melhor?
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
O Caso das Mães Atormentadoras
A Georgia deixou um comentário no último post dizendo que ou eu não tenho mãe ou moro muito longe dela. Porque quem mais a perturba na questão do "se cuidar" é sua mãe. Ela acertou em cheio: eu moro mesmo longe da minha mãe. Se eu morasse perto, minha guinada para o feminismo prático seria menos indolor. Quando escrevi o post otimista, havia acabado de chegar à casa dos meus pais para passar duas semanas. Depois de um contato mais prolongado com a mamã, a coisa mudou um pouco de figura.
Minha mãe continua achando que eu estou "desleixada", ou "largada". Que "a aparência é muito importante nos dias de hoje". Que "radicalizar é ruim".
Perguntei se ela percebia que eu estava feliz. Ela hesitou um momento e me lascou um "mas tenho medo que você se decepcione, porque não dá para mudar o mundo". Eu respondi que, se eu não fizesse nada, o mundo ia ficar do mesmo jeito. Se eu fizesse e o mundo não mudasse, nada se perdia, e além do mais eu estava me divertindo no processo.
O discurso dela é contraditório. Ela diz que minhas teorias só servem pra mim, que já tenho emprego, sou casada e tenho boa aparência (ué, mas eu não sou desleixada?). Eu rebato dizendo que, se eu, com todas essas vantagens, não estiver disposta a desprezar as exigências sociais, quem vai estar?
Mas, enfim, eu converso com ela a título ilustrativo. Porque estou segura e serena em minha decisão e não preciso convencê-la. Uma coisa é explicar; outra é querer que ela concorde. Eu sempre quis a aprovação dos meus pais (quem não quer?), mas um dia descobri que ela não é exatamente necessária. Sou idependente financeiramente: posso fazer as minhas próprias escolhas e bancá-las (em mais de um sentido). Sem briga e sem conflito. Minha mãe reclama, eu sorrio, e pronto.
Chegar nesse nível zen, claro, não é fácil. Eu, por exemplo, gastei trinta e três anos.
Desejo boa sorte à Georgia. E lembro que o jeito mais fácil de encerrar uma discussão é dizer à outra parte: "Você tem razão". E continuar fazendo tudo do jeito que você bem entender.
Minha mãe continua achando que eu estou "desleixada", ou "largada". Que "a aparência é muito importante nos dias de hoje". Que "radicalizar é ruim".
Perguntei se ela percebia que eu estava feliz. Ela hesitou um momento e me lascou um "mas tenho medo que você se decepcione, porque não dá para mudar o mundo". Eu respondi que, se eu não fizesse nada, o mundo ia ficar do mesmo jeito. Se eu fizesse e o mundo não mudasse, nada se perdia, e além do mais eu estava me divertindo no processo.
O discurso dela é contraditório. Ela diz que minhas teorias só servem pra mim, que já tenho emprego, sou casada e tenho boa aparência (ué, mas eu não sou desleixada?). Eu rebato dizendo que, se eu, com todas essas vantagens, não estiver disposta a desprezar as exigências sociais, quem vai estar?
Mas, enfim, eu converso com ela a título ilustrativo. Porque estou segura e serena em minha decisão e não preciso convencê-la. Uma coisa é explicar; outra é querer que ela concorde. Eu sempre quis a aprovação dos meus pais (quem não quer?), mas um dia descobri que ela não é exatamente necessária. Sou idependente financeiramente: posso fazer as minhas próprias escolhas e bancá-las (em mais de um sentido). Sem briga e sem conflito. Minha mãe reclama, eu sorrio, e pronto.
Chegar nesse nível zen, claro, não é fácil. Eu, por exemplo, gastei trinta e três anos.
Desejo boa sorte à Georgia. E lembro que o jeito mais fácil de encerrar uma discussão é dizer à outra parte: "Você tem razão". E continuar fazendo tudo do jeito que você bem entender.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
O Caso da Aparência, Atualização
* Fui a um dos encontros de preparação para o intercâmbio profissional maquiadinha (batom e olheiras escondidas). Ninguém percebeu, comentou ou me tratou de maneira diferente.
* Depois que cortei o cabelo, nas férias, encontrei colegas de trabalho com os quais tenho contato ocasional. Eles me olharam com cara de "alguma coisa está diferente em você, mas eu não sei o que é".
* Reencontrei parentes que não me viam há algum tempo. Eles nem registraram o cabelo curto.
Resumo da ópera: a pessoa que mais se importava com a minha aparência era eu.
* Depois que cortei o cabelo, nas férias, encontrei colegas de trabalho com os quais tenho contato ocasional. Eles me olharam com cara de "alguma coisa está diferente em você, mas eu não sei o que é".
* Reencontrei parentes que não me viam há algum tempo. Eles nem registraram o cabelo curto.
Resumo da ópera: a pessoa que mais se importava com a minha aparência era eu.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O Caso dos Respeitos, Mais Um
Discutimos e discutimos, mas não sei se tocamos em um ponto importantíssimo: há idéias e idéias, e ideologias e ideologias.
Respeitar uma pessoa feminista é muito diferente de respeitar uma pessoa machista. Respeitar uma pessoa "pró-escolha" é muito diferente de respeitar uma pessoa "pró-vida". Respeitar um escravocrata é muito diferente de respeitar um abolicionista.
O feminismo quer que todo mundo tenha direitos; o machismo quer que os homens tenham prerrogativas só para eles. O movimento "pró-escolha" acredita que cabe à mulher decidir se aborta ou não; o "pró-vida" decide que ela não pode, e pronto. A escravatura... não preciso completar.
Existem ideologias includentes e excludentes, e eu só respeito as includentes. Não me venham dizer que as religiões que pregam a submissão das mulheres são equivalentes às que não pregam (tem alguma?). Que as culturas que obrigam à circuncisão feminina são tão válidas quanta as que consideram que as mulheres são donas de seus próprios corpos. Direitos humanos, pô!
Eu "não tenho de respeitar" as escolhas alheias coisa nenhuma. Quando a escolha alheia for espancar os filhos, aceitar passivamente estelionato religioso (dizerem que você não arruma emprego porque não doou o suficiente para Deus é o quê?), desprezar pessoas de raça diferente, a pessoa pode estar feliz o quanto for: eu não concordo, não aceito, não respeito e acabou-se.
* * *
Eu tinha botado "intervenções cirúrgicas desnecessárias" na lista negra. Aí percebi que, se eu acho que se o corpo é da pessoa, inclusive pra ela se matar se quiser, não posso deixar de respeitar a opção por botox e silicone. Esses vão ficar na lista "não acho bom, não valorizo e não aplaudo". Mas respeito, né.
Acho que um bom sinal de que as idéias da gente prestam é o fato de elas geraram situações que não nos agradam individualmente, como no exemplo acima. Porque a idéia não é criar um mundo que eu pessoalmente ache fofo, mas um lugar de justiça e igualdade pra todo mundo.
Respeitar uma pessoa feminista é muito diferente de respeitar uma pessoa machista. Respeitar uma pessoa "pró-escolha" é muito diferente de respeitar uma pessoa "pró-vida". Respeitar um escravocrata é muito diferente de respeitar um abolicionista.
O feminismo quer que todo mundo tenha direitos; o machismo quer que os homens tenham prerrogativas só para eles. O movimento "pró-escolha" acredita que cabe à mulher decidir se aborta ou não; o "pró-vida" decide que ela não pode, e pronto. A escravatura... não preciso completar.
Existem ideologias includentes e excludentes, e eu só respeito as includentes. Não me venham dizer que as religiões que pregam a submissão das mulheres são equivalentes às que não pregam (tem alguma?). Que as culturas que obrigam à circuncisão feminina são tão válidas quanta as que consideram que as mulheres são donas de seus próprios corpos. Direitos humanos, pô!
Eu "não tenho de respeitar" as escolhas alheias coisa nenhuma. Quando a escolha alheia for espancar os filhos, aceitar passivamente estelionato religioso (dizerem que você não arruma emprego porque não doou o suficiente para Deus é o quê?), desprezar pessoas de raça diferente, a pessoa pode estar feliz o quanto for: eu não concordo, não aceito, não respeito e acabou-se.
* * *
Eu tinha botado "intervenções cirúrgicas desnecessárias" na lista negra. Aí percebi que, se eu acho que se o corpo é da pessoa, inclusive pra ela se matar se quiser, não posso deixar de respeitar a opção por botox e silicone. Esses vão ficar na lista "não acho bom, não valorizo e não aplaudo". Mas respeito, né.
Acho que um bom sinal de que as idéias da gente prestam é o fato de elas geraram situações que não nos agradam individualmente, como no exemplo acima. Porque a idéia não é criar um mundo que eu pessoalmente ache fofo, mas um lugar de justiça e igualdade pra todo mundo.
O Caso dos Filmes
Depois que a gente toma a pílula vermelha da Matrix, muitas coisas que antes passavam batido começam a incomodar. Na verdade, como a gente vive em uma sociedade machista, o surpreendente é que alguma coisa não incomode, né?
Nesta semana vi um filme chamado "The Boat that Rocked". A idéia é legal - um barco/rádio-pirata que transmite rock 24 horas por dia, na Inglaterra dos anos 60. Os locutores são doidões e divertidos, e vários atores saíram de seriados meio desconhecidos a que eu gosto de assistir. Tinha tudo para agradar, certo? Só que tem um detalhe: mulheres não são admitidas no barco. Para variar, elas ficam à margem da diversão. Elas só servem para fazer comida (tem uma cozinheira lésbica na tripulação) e sexo com os locutores, muitos dos quais têm uma aparência seriamente repelente. E é claro que essas últimas, que são trazidas numa lancha e consideram os DJs heróis do rock, são todas novinhas e lindas.
No universo do filme, milhões de ingleses escutam a rádio-pirata. Mais da metade são mulheres. Nesse universo imaginário, será que não teria nem uminha que também gostaria de ser locutora? Os roteiristas acham que não. A única ambição delas é transar com os DJs.
O interessante é que o filme tem fumaças de libertário. A rádio vai contra o "sistema", como demonstrado pelas tentativas governamentais de fechá-la. O rock é revolucionário. Pena que a revolução chega manca para as mulheres - a única liberdade que elas conquistam é a de fazer sexo com seus heróis.
Ontem fui assistira a "Lua Nova". E sabem que gostei bem? Quando eu não estava ofuscada pelos músculos do lobisomem Jake (igualzinho à Bella, que perde a fala umas boas três vezes com a visão do Jacob sem camisa), fiquei pensando como era legal a disputada personagem principal não ser uma gostosona decotada. Tudo bem, o vampiro Edward é chegado dela por causa de seu sanguinho saboroso, mas o Jake e o coleguinha de escola, cujo nome me foge, gostam dela como pessoa mesmo. E a Bella é "gente que faz": ela toma decisões e as executa. Confesso que ela é mais corajosa que eu, que nunca na vida ia me jogar daquele penhasco altíssimo. Estou desconfiada que, na questão "women-friendly", "Lua Nova" ganha mais pontos do que "The Boat that Rocked".
PS: Durante o filme, algumas dúvidas me atormentaram: por que vampiros têm de ser tão afetados (sim, Volturi, estou falando com vocês)? Por que a Bella Swan pisca tanto o olho e franze tanto a testa? Por que a realeza vampiresca é formada por três vampiros homens e nenhuma mulher? Por que o diretor achou que fosse uma boa idéia botar o torso pálido e magro do Edward na telona? Por que a Bella insiste em ficar com o vampiro cabeçudo e gelado, que faz careta toda vez que vai beijá-la (é ele "se controlando", eu sei, mas não é agradável) e não com o lobisomem quentinho e gostosão que a adora?
PS 2: Só pode ser porque a Bella já sabe: o Jacob tem de ficar é comigo (licença poética, Maridinho. Licença poética.).
Nesta semana vi um filme chamado "The Boat that Rocked". A idéia é legal - um barco/rádio-pirata que transmite rock 24 horas por dia, na Inglaterra dos anos 60. Os locutores são doidões e divertidos, e vários atores saíram de seriados meio desconhecidos a que eu gosto de assistir. Tinha tudo para agradar, certo? Só que tem um detalhe: mulheres não são admitidas no barco. Para variar, elas ficam à margem da diversão. Elas só servem para fazer comida (tem uma cozinheira lésbica na tripulação) e sexo com os locutores, muitos dos quais têm uma aparência seriamente repelente. E é claro que essas últimas, que são trazidas numa lancha e consideram os DJs heróis do rock, são todas novinhas e lindas.
No universo do filme, milhões de ingleses escutam a rádio-pirata. Mais da metade são mulheres. Nesse universo imaginário, será que não teria nem uminha que também gostaria de ser locutora? Os roteiristas acham que não. A única ambição delas é transar com os DJs.
O interessante é que o filme tem fumaças de libertário. A rádio vai contra o "sistema", como demonstrado pelas tentativas governamentais de fechá-la. O rock é revolucionário. Pena que a revolução chega manca para as mulheres - a única liberdade que elas conquistam é a de fazer sexo com seus heróis.
Ontem fui assistira a "Lua Nova". E sabem que gostei bem? Quando eu não estava ofuscada pelos músculos do lobisomem Jake (igualzinho à Bella, que perde a fala umas boas três vezes com a visão do Jacob sem camisa), fiquei pensando como era legal a disputada personagem principal não ser uma gostosona decotada. Tudo bem, o vampiro Edward é chegado dela por causa de seu sanguinho saboroso, mas o Jake e o coleguinha de escola, cujo nome me foge, gostam dela como pessoa mesmo. E a Bella é "gente que faz": ela toma decisões e as executa. Confesso que ela é mais corajosa que eu, que nunca na vida ia me jogar daquele penhasco altíssimo. Estou desconfiada que, na questão "women-friendly", "Lua Nova" ganha mais pontos do que "The Boat that Rocked".
PS: Durante o filme, algumas dúvidas me atormentaram: por que vampiros têm de ser tão afetados (sim, Volturi, estou falando com vocês)? Por que a Bella Swan pisca tanto o olho e franze tanto a testa? Por que a realeza vampiresca é formada por três vampiros homens e nenhuma mulher? Por que o diretor achou que fosse uma boa idéia botar o torso pálido e magro do Edward na telona? Por que a Bella insiste em ficar com o vampiro cabeçudo e gelado, que faz careta toda vez que vai beijá-la (é ele "se controlando", eu sei, mas não é agradável) e não com o lobisomem quentinho e gostosão que a adora?
PS 2: Só pode ser porque a Bella já sabe: o Jacob tem de ficar é comigo (licença poética, Maridinho. Licença poética.).
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
O Caso do Respeito
A Setembro faz comentários pertinentes que eu não consigo responder em poucos caracteres. O jeito é fazer um post!
"...conheço pessoas que seguem esses esquemas pré-estabelecidos e são muito felizes! MESMO! É difícil de aceitar, certas vezes, mas todo mundo tem o direito de fazer o que quiser!! Quem quiser se rebelar, ótimo! Quem está feliz como está, ótimo! Acho muito chato quando pessoas que mudaram algum comportamento, ou forma de agir, e começam a criticar outras que estão felizes com a atual situação! Cada um tem que saber o que é felicidade. Nem sempre o que me faz feliz faz outra pessoa feliz. Aceitar diferenças é muito, mas MUITO, mais difícil que qualquer outra coisa!!!"
Eu também acho que aceitar diferenças é muito difícil. Pra mim, é um trabalho diário, porque eu costumava achar que sabia o que é melhor para os outros. Respeito às diferenças, esse é meu novo lema. Entretanto...
Entretanto, às vezes eu acho que as pessoas estão tomando decisões ("fazendo o que querem") sem estarem conscientes de todas as variáveis envolvidas. E aí eu vou lá dar a minha opinião. Vou mesmo. Isso fica claríssimo quando se trata de questões feministas. Porque elas envolvem olhar o mundo de um outro jeito (tipo sair da Matrix).
Às vezes as pessoas me acham chata mesmo. Mas isso não me ofende. Ao contrário - chata é uma pessoa que incomoda. Que muda as coisas de lugar. Que mostra verdades inconvenientes. E, de vez em quando, convence alguém.
Concordo que cada um tem de saber o que é felicidade. Mas questionar a felicidade alheia não significa destruí-la. Questionar tem o sentido de fazer perguntas, mesmo. Eu gosto de trocar idéias e opções. E também posso ser convencida.
E também tem aquela coisa: que diferenças que a gente deve aceitar? E se a pessoa for racista? Machista? Fanaticamente religiosa? Neo-nazista? É complicado, né?
PS: ah, eu não critico as pessoas que estão felizes com a atual situação. Não, eu converso com elas e explico porque elas não deviam estar felizes. Vou embora assim que elas começam a chorar.
PS2: brincadeirinha!
"...conheço pessoas que seguem esses esquemas pré-estabelecidos e são muito felizes! MESMO! É difícil de aceitar, certas vezes, mas todo mundo tem o direito de fazer o que quiser!! Quem quiser se rebelar, ótimo! Quem está feliz como está, ótimo! Acho muito chato quando pessoas que mudaram algum comportamento, ou forma de agir, e começam a criticar outras que estão felizes com a atual situação! Cada um tem que saber o que é felicidade. Nem sempre o que me faz feliz faz outra pessoa feliz. Aceitar diferenças é muito, mas MUITO, mais difícil que qualquer outra coisa!!!"
Eu também acho que aceitar diferenças é muito difícil. Pra mim, é um trabalho diário, porque eu costumava achar que sabia o que é melhor para os outros. Respeito às diferenças, esse é meu novo lema. Entretanto...
Entretanto, às vezes eu acho que as pessoas estão tomando decisões ("fazendo o que querem") sem estarem conscientes de todas as variáveis envolvidas. E aí eu vou lá dar a minha opinião. Vou mesmo. Isso fica claríssimo quando se trata de questões feministas. Porque elas envolvem olhar o mundo de um outro jeito (tipo sair da Matrix).
Às vezes as pessoas me acham chata mesmo. Mas isso não me ofende. Ao contrário - chata é uma pessoa que incomoda. Que muda as coisas de lugar. Que mostra verdades inconvenientes. E, de vez em quando, convence alguém.
Concordo que cada um tem de saber o que é felicidade. Mas questionar a felicidade alheia não significa destruí-la. Questionar tem o sentido de fazer perguntas, mesmo. Eu gosto de trocar idéias e opções. E também posso ser convencida.
E também tem aquela coisa: que diferenças que a gente deve aceitar? E se a pessoa for racista? Machista? Fanaticamente religiosa? Neo-nazista? É complicado, né?
PS: ah, eu não critico as pessoas que estão felizes com a atual situação. Não, eu converso com elas e explico porque elas não deviam estar felizes. Vou embora assim que elas começam a chorar.
PS2: brincadeirinha!
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
O Caso das Trocas de Rumo
Então vai fazer dois anos que eu trabalho e o Maridinho estuda. Foi muito tranqüilo e sem trauma nenhum, e eu particularmente adorei: ele tem mais tempo livre, então se ocupou dos afazeres domésticos. Ele diz que a profissão atual dele é dondoco, mas eu acho que madame sou eu, que ando pra cima e pra baixo de chofer conjugal e não tenho preocupação alguma fora do horário de trabalho.
Quando nos decidimos por esse esquema, meu pai estressou um pouco, mas escutou nossas razões e nunca falou mais nada. Na verdade, a mais preocupada foi uma amiga nossa muito querida e meio conservadora. Quando a gente se encontra, ela sempre acha que o Maridinho está meio tristinho. Aí, no dia seguinte, eu pergunto pra ele: meu amor, você anda insatisfeito? E ele me olha com total perplexidade e responde: como assim? Eu estou ótimo!
O que eu quero dizer é que, se eu e o Maridinho fôssemos pessoas agarradas aos papéis que a sociedade gosta de destinar a homens e mulheres, estaríamos muito menos felizes do que agora. Provavelmente ele teria continuado num emprego que não o satisfazia mais. Talvez decidisse terminar a faculdade à noite, e aí a gente só se veria nos finais-de-semana. Se topasse parar de trabalhar para estudar mas não levantasse uma palha em casa, provavelmente eu ficaria ressentida. E de qualquer jeito reclamaríamos da queda de nossa capacidade de consumo, porque afinal gastar não é um direito adquirido?
Não estou dizendo que eu tenho a receita do sucesso. Só estou falando que pode ser que sair da rota programada compense. Às vezes exatamente o que nos dizem que é caminho certo para a felicidade pode virar prisão.
Exemplo 1: quando a gente casou, todo mundo nos dizia para comprar um apartamento. Decidimos alugar, e quando o Leo parou de trabalhar, tínhamos reservas financeiras para uma emergência (que nunca aconteceu). Agora ele está fazendo concurso público e a gente topa ir para qualquer lugar do Brasil, porque não tem nada que nos prenda - nem mesmo um imóvel.
Exemplo 2: tenho um casal de amigos que são profissionais muito bem-sucedidos. Eles têm reclamado muito da rotina e da profissão (não, Chris, não são vocês - vocês não reclamam!), e eu e Maridinho vivemos sugerindo alternativas, mas eles ganham tão bem que fica difícil mudarem de carreira, mesmo não estando satisfeitos com ela.
Estão vendo?
Quando nos decidimos por esse esquema, meu pai estressou um pouco, mas escutou nossas razões e nunca falou mais nada. Na verdade, a mais preocupada foi uma amiga nossa muito querida e meio conservadora. Quando a gente se encontra, ela sempre acha que o Maridinho está meio tristinho. Aí, no dia seguinte, eu pergunto pra ele: meu amor, você anda insatisfeito? E ele me olha com total perplexidade e responde: como assim? Eu estou ótimo!
O que eu quero dizer é que, se eu e o Maridinho fôssemos pessoas agarradas aos papéis que a sociedade gosta de destinar a homens e mulheres, estaríamos muito menos felizes do que agora. Provavelmente ele teria continuado num emprego que não o satisfazia mais. Talvez decidisse terminar a faculdade à noite, e aí a gente só se veria nos finais-de-semana. Se topasse parar de trabalhar para estudar mas não levantasse uma palha em casa, provavelmente eu ficaria ressentida. E de qualquer jeito reclamaríamos da queda de nossa capacidade de consumo, porque afinal gastar não é um direito adquirido?
Não estou dizendo que eu tenho a receita do sucesso. Só estou falando que pode ser que sair da rota programada compense. Às vezes exatamente o que nos dizem que é caminho certo para a felicidade pode virar prisão.
Exemplo 1: quando a gente casou, todo mundo nos dizia para comprar um apartamento. Decidimos alugar, e quando o Leo parou de trabalhar, tínhamos reservas financeiras para uma emergência (que nunca aconteceu). Agora ele está fazendo concurso público e a gente topa ir para qualquer lugar do Brasil, porque não tem nada que nos prenda - nem mesmo um imóvel.
Exemplo 2: tenho um casal de amigos que são profissionais muito bem-sucedidos. Eles têm reclamado muito da rotina e da profissão (não, Chris, não são vocês - vocês não reclamam!), e eu e Maridinho vivemos sugerindo alternativas, mas eles ganham tão bem que fica difícil mudarem de carreira, mesmo não estando satisfeitos com ela.
Estão vendo?
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