Acho que todo mundo já ouviu a frase: "Todo homem fica bem de terno". E acho que fica mesmo. É uma roupa sóbria, inteiriça, que cobre o corpo todo e não marca nada. Além disso, o terno tem outras vantagens: é só trocar a gravata e a camisa que o visual se transforma. É adequado para congressos, festas, funerais, empregos formais, restaurantes finos e aparições públicas.
Cadê o meu terno? Cadê a roupa que não exige que eu não esteja depilada e em forma? Cadê o visual próprio para qualquer ocasião, sem frescura de "durante o dia, tecidos leves e cumprimentos acima do joelho" e "durante a noite, brilhos e jóias são permitidos e encorajados"? Cadê as vestes que significam poder, competência e seriedade, que não destacam meus caracteres sexuais secundários, e que mostram que eu levo a sério tanto o trabalho quanto as celebrações?
Não tem. Não me falem que existe terninho feminino ou tailleur, porque não é a mesma coisa. Primeiro porque eles são ajustadinhos no corpo. Depois porque eles existem em muitas cores. Terceiro porque só dá para ir a um casamento noturno de terninho se ele for de um tecido exótico e brilhante. Eu não posso ter quatro ou cinco terninhos em variações de preto e cinza, um monte de camisas, e considerar que é um guarda-roupa completo.
Mas eu posso tentar, certo? Me aguardem.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
O Caso da Volta à Infância
Ando me lembrando de um tempo ótimo de minha vida em que também tive cabelos curtinhos: a infância.
Acho que fui muito feliz até os 8 anos, quando me tiraram de um colégio alegre e colorido e me colocaram em um cheio de regras e probições. Esse não foi o problema (eu sempre gostei de seguir as regras e ser uma boa menina - minhas irmãs me chamavam de “sistema”, lembram?). O problema é que ninguém me contava as malditas regras, e os coleguinhas malvados da segunda série – é com você mesmo que eu estou falando, Juliana N. – riam de mim toda vez que eu fazia alguma coisa “errada” (como chamar a professora de “tia”, escrever em duas linhas no caderno, não saber fazer polichinelo ou cantar o hino da bandeira), ao invés de me falar o que era “certo”. Solidariedade zero.
Na época eu era uma criança muito séria e digna e ficava desesperada quando riam de mim. O resultado é que virei uma aluna retraída e sem amigos, que passava o recreio lendo livros que eu trocava diariamente na biblioteca. O que foi muito bom para minha formação cultural, mas péssimo para minha vida social.
Mas eu divago. O que eu queria dizer é que, quando criança, eu tinha cabelos curtinhos e vários shorts idem que eu adorava. Eu nunca tive muita coordenação motora, mas amava correr e pular (o resultado sendo que eu estava sempre cheia de manchas roxas). Os shorts me davam mobilidade total.
Lá pelos 12 anos meu cabelo tinha crescido até o ombro. Minha mãe e minhas tias decidiram que eu já era mocinha e passaram a me obrigar a usar umas roupas ridículas para ir a eventos. Me lembro especialmente de um conjunto listrado de amarelo e preto. A saia era justa e curta e de malha. Eu a odiava. Com saia justa e curta não dá pra correr e pular, ou sentar no chão, ou ficar de perna aberta. E como eu era uma tábua, também não vi vantagem estética alguma no modelito.
Talvez, se eu tivesse tido um irmão, eu teria percebido a diferença de tratamento e chorado e rangido os dentes: “por que o Joselito pode usar short e eu não?”. Mas eu não tive irmão. Então me conformei com a roupa de abelhinha e a bolsa a tiracolo (essa minha mãe levou anos para me convencer a usar. Mas conseguiu.)
Onde eu queria chegar mesmo? Ah, é. Agora que sou adulta, posso retomar (quase) tudo de legal do tempo de criança!
Posso ter cabelo curto e usar shorts e abandonar a bolsa. Posso correr e pular. Posso não usar saltos, nunca (saltos atrapalham muito as corridas e os pulos). Posso dançar freneticamente na sala.
Sem perder as vantagens de estar crescida e madura. Por exemplo: hoje, se alguém ri de mim, eu rio de volta. Ou os ignoro do alto de minha superioridade. Ou digo que o Leo vai bater neles (fica esperta, Juliana N.!) E tenho salário, então posso comprar um monte de chocolate, um montão mesmo.
Acho que fui muito feliz até os 8 anos, quando me tiraram de um colégio alegre e colorido e me colocaram em um cheio de regras e probições. Esse não foi o problema (eu sempre gostei de seguir as regras e ser uma boa menina - minhas irmãs me chamavam de “sistema”, lembram?). O problema é que ninguém me contava as malditas regras, e os coleguinhas malvados da segunda série – é com você mesmo que eu estou falando, Juliana N. – riam de mim toda vez que eu fazia alguma coisa “errada” (como chamar a professora de “tia”, escrever em duas linhas no caderno, não saber fazer polichinelo ou cantar o hino da bandeira), ao invés de me falar o que era “certo”. Solidariedade zero.
Na época eu era uma criança muito séria e digna e ficava desesperada quando riam de mim. O resultado é que virei uma aluna retraída e sem amigos, que passava o recreio lendo livros que eu trocava diariamente na biblioteca. O que foi muito bom para minha formação cultural, mas péssimo para minha vida social.
Mas eu divago. O que eu queria dizer é que, quando criança, eu tinha cabelos curtinhos e vários shorts idem que eu adorava. Eu nunca tive muita coordenação motora, mas amava correr e pular (o resultado sendo que eu estava sempre cheia de manchas roxas). Os shorts me davam mobilidade total.
Lá pelos 12 anos meu cabelo tinha crescido até o ombro. Minha mãe e minhas tias decidiram que eu já era mocinha e passaram a me obrigar a usar umas roupas ridículas para ir a eventos. Me lembro especialmente de um conjunto listrado de amarelo e preto. A saia era justa e curta e de malha. Eu a odiava. Com saia justa e curta não dá pra correr e pular, ou sentar no chão, ou ficar de perna aberta. E como eu era uma tábua, também não vi vantagem estética alguma no modelito.
Talvez, se eu tivesse tido um irmão, eu teria percebido a diferença de tratamento e chorado e rangido os dentes: “por que o Joselito pode usar short e eu não?”. Mas eu não tive irmão. Então me conformei com a roupa de abelhinha e a bolsa a tiracolo (essa minha mãe levou anos para me convencer a usar. Mas conseguiu.)
Onde eu queria chegar mesmo? Ah, é. Agora que sou adulta, posso retomar (quase) tudo de legal do tempo de criança!
Posso ter cabelo curto e usar shorts e abandonar a bolsa. Posso correr e pular. Posso não usar saltos, nunca (saltos atrapalham muito as corridas e os pulos). Posso dançar freneticamente na sala.
Sem perder as vantagens de estar crescida e madura. Por exemplo: hoje, se alguém ri de mim, eu rio de volta. Ou os ignoro do alto de minha superioridade. Ou digo que o Leo vai bater neles (fica esperta, Juliana N.!) E tenho salário, então posso comprar um monte de chocolate, um montão mesmo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Caso da Homofobia
Às vezes me pergunto por que tem uns homens tão homofóbicos. Deve ter mulher também, mas geralmente quem expressa seu horror em alto e bom tom são os homens. Horror aos gays masculinos, claro. As lésbicas não são muito citadas nessa hora (só para comparecerem nas piadinhas machistas de praxe).
Posso estar viajando legal, mas ando me perguntando se a fobia não viria do fato de os homens, na sociedade patriarcal, estarem no topo da cadeia alimentar: eles são os “pegadores”, os sujeitos do desejo. A princípio um homem tem total liberdade para selecionar e tentar conquistar sua parceira. Ah, e eles não precisam temer o estupro, claro.
Entretanto, em um mundo que existem gays, o homem heterossexual também pode ser presa. Pode ser assediado; pode tornar-se vulnerável. (Não que isso vá acontecer, é evidente: ao contrário do que alguns homens hetero pensam, gays não são monstros libidinosos prontos para atacar. Eles têm padrões!). Em tese, um mundo em que o homem se torna objeto de desejo apresenta todas essas possibilidades, vejam só. E o que pode ser mais horrível do que ocupar um papel (desvantajoso) tradicionalmente impingido às mulheres?
Já li na internet reclamações de homens a respeito da crescente tolerância em relação ao homossexualismo. Um deles havia até recebido uma cantada de outro homem na rua, coitadinho! Puxa, mas ele não achou que era ótimo para a auto-estima dele? Que era uma reafirmação de sua beleza? Que era a maior vantagem? (Que é o que geralmente dizem para nós, mulheres, quando a gente reclama do assédio masculino.)
A propósito, a Danuza Leão tem uma dica ótima de como reagir a abordagens de pessoas do mesmo sexo. Igualzinho você reage a abordagens do sexo oposto, ué! Se está interessado, dá bola; se não, dispensa.
Não tem mistério.
Posso estar viajando legal, mas ando me perguntando se a fobia não viria do fato de os homens, na sociedade patriarcal, estarem no topo da cadeia alimentar: eles são os “pegadores”, os sujeitos do desejo. A princípio um homem tem total liberdade para selecionar e tentar conquistar sua parceira. Ah, e eles não precisam temer o estupro, claro.
Entretanto, em um mundo que existem gays, o homem heterossexual também pode ser presa. Pode ser assediado; pode tornar-se vulnerável. (Não que isso vá acontecer, é evidente: ao contrário do que alguns homens hetero pensam, gays não são monstros libidinosos prontos para atacar. Eles têm padrões!). Em tese, um mundo em que o homem se torna objeto de desejo apresenta todas essas possibilidades, vejam só. E o que pode ser mais horrível do que ocupar um papel (desvantajoso) tradicionalmente impingido às mulheres?
Já li na internet reclamações de homens a respeito da crescente tolerância em relação ao homossexualismo. Um deles havia até recebido uma cantada de outro homem na rua, coitadinho! Puxa, mas ele não achou que era ótimo para a auto-estima dele? Que era uma reafirmação de sua beleza? Que era a maior vantagem? (Que é o que geralmente dizem para nós, mulheres, quando a gente reclama do assédio masculino.)
A propósito, a Danuza Leão tem uma dica ótima de como reagir a abordagens de pessoas do mesmo sexo. Igualzinho você reage a abordagens do sexo oposto, ué! Se está interessado, dá bola; se não, dispensa.
Não tem mistério.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O Caso do Espectro
O cunhado M. disse que meu feminismo prático é complicado para mulheres que estão tentando arrumar uma vaga no mercado de trabalho e/ou um namorado. Como se só existissem duas opções: perua total X esfarrapada de chinelos.
Expliquei para ele que existe todo um espectro de cuidados femininos. E que quem concorda de que muitos deles são imposição da sociedade sem embasamento racional pode optar por ficar na parte mais baixa do espectro, sem radicalizar. (Apesar de mães que acham que "não passar esmalte na unha" ou "não fazer escova" seja radical, ninguém vai apontar você na rua por causa disso. Acho que radicalizar é sacudir as expectativas mesmo, como passar máquina 4 na cabeça ou não se depilar.)
Não acho que meu feminismo prático seja o único feminismo possível (a Marta Suplicy é feminista e usa botox, uai). E vejo que a maior beneficiária dele, até agora, fui eu.
Fico pronta num instante. Arrumo malas num piscar de olhos. Não preciso passar em casa para trocar de roupa entre programas. Não ligo para o que as pessoas estão vestindo. Acho um monte de gente "fora do padrão" bonita. Não me importo com pequenas imperfeições em mim e no mundo. Não vejo mais E!Entertainment. Estou mais tranqüila, mais alegre, mais feliz. (sim, eu fico brava quando leio uma matéria sexista ou veja um comercial idem. Mas nem esquento com probleminhas do dia-a-dia.) Ah, e também ando me achando muito rica, agora que descobri que bolsas de marca que custam milhares de dólares e sapatos idem são inteiramente dispensáveis (nunca comprei nenhum dos dois, mas confesso que, no ápice das leituras das revistas femininas e dos blogues de moda, cheguei a achar que eles eram importantes).
Por sua vez, o Maridinho está achando ótimo. Ontem ele declarou que o meu feminismo foi a segunda melhor coisa que aconteceu a ele (a primeira foi casar comigo). É fato que meu nível de frescura despencou.
Expliquei para ele que existe todo um espectro de cuidados femininos. E que quem concorda de que muitos deles são imposição da sociedade sem embasamento racional pode optar por ficar na parte mais baixa do espectro, sem radicalizar. (Apesar de mães que acham que "não passar esmalte na unha" ou "não fazer escova" seja radical, ninguém vai apontar você na rua por causa disso. Acho que radicalizar é sacudir as expectativas mesmo, como passar máquina 4 na cabeça ou não se depilar.)
Não acho que meu feminismo prático seja o único feminismo possível (a Marta Suplicy é feminista e usa botox, uai). E vejo que a maior beneficiária dele, até agora, fui eu.
Fico pronta num instante. Arrumo malas num piscar de olhos. Não preciso passar em casa para trocar de roupa entre programas. Não ligo para o que as pessoas estão vestindo. Acho um monte de gente "fora do padrão" bonita. Não me importo com pequenas imperfeições em mim e no mundo. Não vejo mais E!Entertainment. Estou mais tranqüila, mais alegre, mais feliz. (sim, eu fico brava quando leio uma matéria sexista ou veja um comercial idem. Mas nem esquento com probleminhas do dia-a-dia.) Ah, e também ando me achando muito rica, agora que descobri que bolsas de marca que custam milhares de dólares e sapatos idem são inteiramente dispensáveis (nunca comprei nenhum dos dois, mas confesso que, no ápice das leituras das revistas femininas e dos blogues de moda, cheguei a achar que eles eram importantes).
Por sua vez, o Maridinho está achando ótimo. Ontem ele declarou que o meu feminismo foi a segunda melhor coisa que aconteceu a ele (a primeira foi casar comigo). É fato que meu nível de frescura despencou.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O Caso dos Gêneros
Uma das discussões do feminismo é a igualdade entre os sexos. Porque homens e mulheres não diferentes, ué.
Eu costumava negar isso até a morte, afirmando que as diferenças são puramente construídas, mas tive de dar o braço a torcer. Agora acho que as diferenças são majoritariamente construídas. De fato um homem não vai engravidar e uma mulher não vai ter câncer de próstata. Mas nada impede que ele tenha licença-maternidade (na Suécia o tempo é divido entre mãe e pai) ou que ela vá pra guerra (em Israel o serviço militar é obrigatório para as mulheres também).
A amiga L., que faz Filosofia na USP, me disse que a discussão biológico X cultural na diferenciação de gêneros já está superada. O entendimento atual é que ambos os fatores influem e não há como dizer qual é mais importante do que o outro. Particularmente, ela acredita que todos nós nascemos com características [consideradas pela sociedade como] femininas e características [consideradas pela sociedade como] masculinas, e algumas são mais estimuladas do que as outras, conforme o sexo biológico do indivíduo.
Acho que faz sentido. E também acho que o estímulo dirigido é uma estupidez. É mesma coisa que pegar uma criança no primeiro ano escolar, decidir que ela deve se aplicar ao português porque seus olhos são castanhos, e proibir que ela freqüente as aulas de matemática. E ensiná-la a olhar com desconfiança as crianças de olhos azuis, que freqüentam as aulas de matemática. E a desprezar as crianças de olhos castanhos que insistem em freqüentar as aulas de matemática, indo contra a ordem natural das coisas, as pervertidas!
Embora as crianças em geral tenham habilidade tanto para línguas quanto para números, nossa criança ia ficar ótima em português e fraquíssima em matemática. Ela não precisaria se preocupar, já que a sociedade ia dizer pra ela que gente de olho castanho nasce para dominar o português, mesmo. Mas não seria muito melhor para ela saber português E matemática?
Acho que é uma boa analogia para o que acontece com a gente. Uma sociedade na qual os homens não podem ser meigos e as mulheres não podem ser agressivas está obrigando todo mundo a enferrujar um monte de habilidades. Um mundo no qual “mulher masculinizada” e “homem afeminado” são xingamentos condena os seres humanos a viverem enclausurados em seus papéis pré-determinados. Porque, vejam bem, características consideradas femininas e masculinas não são mutuamente excludentes. Uma pessoa pode ser briguenta no mercado de ações e delicada com o cônjuge. A situação, e não os cromossomos X e Y, é que determinaria o comportamento. O que me parece muito mais lógico e adequado, né não?
Eu costumava negar isso até a morte, afirmando que as diferenças são puramente construídas, mas tive de dar o braço a torcer. Agora acho que as diferenças são majoritariamente construídas. De fato um homem não vai engravidar e uma mulher não vai ter câncer de próstata. Mas nada impede que ele tenha licença-maternidade (na Suécia o tempo é divido entre mãe e pai) ou que ela vá pra guerra (em Israel o serviço militar é obrigatório para as mulheres também).
A amiga L., que faz Filosofia na USP, me disse que a discussão biológico X cultural na diferenciação de gêneros já está superada. O entendimento atual é que ambos os fatores influem e não há como dizer qual é mais importante do que o outro. Particularmente, ela acredita que todos nós nascemos com características [consideradas pela sociedade como] femininas e características [consideradas pela sociedade como] masculinas, e algumas são mais estimuladas do que as outras, conforme o sexo biológico do indivíduo.
Acho que faz sentido. E também acho que o estímulo dirigido é uma estupidez. É mesma coisa que pegar uma criança no primeiro ano escolar, decidir que ela deve se aplicar ao português porque seus olhos são castanhos, e proibir que ela freqüente as aulas de matemática. E ensiná-la a olhar com desconfiança as crianças de olhos azuis, que freqüentam as aulas de matemática. E a desprezar as crianças de olhos castanhos que insistem em freqüentar as aulas de matemática, indo contra a ordem natural das coisas, as pervertidas!
Embora as crianças em geral tenham habilidade tanto para línguas quanto para números, nossa criança ia ficar ótima em português e fraquíssima em matemática. Ela não precisaria se preocupar, já que a sociedade ia dizer pra ela que gente de olho castanho nasce para dominar o português, mesmo. Mas não seria muito melhor para ela saber português E matemática?
Acho que é uma boa analogia para o que acontece com a gente. Uma sociedade na qual os homens não podem ser meigos e as mulheres não podem ser agressivas está obrigando todo mundo a enferrujar um monte de habilidades. Um mundo no qual “mulher masculinizada” e “homem afeminado” são xingamentos condena os seres humanos a viverem enclausurados em seus papéis pré-determinados. Porque, vejam bem, características consideradas femininas e masculinas não são mutuamente excludentes. Uma pessoa pode ser briguenta no mercado de ações e delicada com o cônjuge. A situação, e não os cromossomos X e Y, é que determinaria o comportamento. O que me parece muito mais lógico e adequado, né não?
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
O Caso das Condições Adversas
Falei que eu não sabia como ia me comportar quando me mudasse para a cidade grande, mas percebi que ando resistindo bem às tentações do consumo. Olha só: a irmã I., que é consultora, está alocada nos States.
Os EUA são tipo assim o paraíso das compras. Lá tem a Sephora, a loja de cosméticos mais completa de todos os tempos; e a Macy's, que tem dez andares de roupas e acessórios e artigos de casa a preços acessíveis ao meu bolsinho; e outlets, pontas-de-estoque que vendem coleções passadas com ótimos descontos. Se eu pedir alguma coisa, a irmã I. traz com a maior boa vontade.
Mas estou me contendo.
* * *
Por outro lado, estou numa orgia de compra de livros que não tem fim. Encomendei todas as Eras do Hobsbawm no Better World (Obs 1: ainda não chegaram; aposto que estão parados com os amiguinhos da Receita Federal. Eu devo ser figurinha marcada na alfândega, porque volta e meia chega um pacotinho meu. Cheio de... livros! Um dia eles vão descobrir que o que eu estou importando ilegalmente são as caixas de papelão, hehe. Obs 2: a observação anterior foi uma piada, tá? Caso alguém tenha ficado na dúvida. A única coisa que eu importo ilegalmente são idéias feministas subversivas. Obs 3: isso também foi uma piada. Obs 4: ou não.). E comprei dois volumes bala de Geografia Mundial e do Brasil. E um Atlas. E uma História do Brasil. E o Casa Grande&Senzala, que me provocou várias emoções contraditórias e que eu acabei dando para o meu pai, que estava de olho nele. E o Raízes do Brasil, que é bem menos empolgante que o CG&S, mas pelo menos não fala que os judeus têm braços atrofiados e dedos como garras pelo manuseio constante do dinheiro. Braços que não servem para trabalhar etc. O que me fez pensar imediatamente no Sr. Burns dos Simpsons. E como boa cristã-nova de quarta geração fiquei indignada pela ofensa aos meus bracinhos. E ontem descobri as obras completas do Machado de Assis em uma superpromoção, e avisei ao Maridinho que seria um ótimo presente de aniversário. Valendo pelos próximos três anos, porque apesar da promoção achei caro pra burro. O pior é que tem tudo do Machadão na rede (menos fotos de nu frontal). Só que eu sou viciada no cheiro de papel novo e só o Machado em papel é que dá para levar pra cama (licença poética, Maridinho).
Então na verdade esse meu fervor anti-consumista é meio fachada, né? Se bem que livros bons não são consumo: são investimento. He.
Os EUA são tipo assim o paraíso das compras. Lá tem a Sephora, a loja de cosméticos mais completa de todos os tempos; e a Macy's, que tem dez andares de roupas e acessórios e artigos de casa a preços acessíveis ao meu bolsinho; e outlets, pontas-de-estoque que vendem coleções passadas com ótimos descontos. Se eu pedir alguma coisa, a irmã I. traz com a maior boa vontade.
Mas estou me contendo.
* * *
Por outro lado, estou numa orgia de compra de livros que não tem fim. Encomendei todas as Eras do Hobsbawm no Better World (Obs 1: ainda não chegaram; aposto que estão parados com os amiguinhos da Receita Federal. Eu devo ser figurinha marcada na alfândega, porque volta e meia chega um pacotinho meu. Cheio de... livros! Um dia eles vão descobrir que o que eu estou importando ilegalmente são as caixas de papelão, hehe. Obs 2: a observação anterior foi uma piada, tá? Caso alguém tenha ficado na dúvida. A única coisa que eu importo ilegalmente são idéias feministas subversivas. Obs 3: isso também foi uma piada. Obs 4: ou não.). E comprei dois volumes bala de Geografia Mundial e do Brasil. E um Atlas. E uma História do Brasil. E o Casa Grande&Senzala, que me provocou várias emoções contraditórias e que eu acabei dando para o meu pai, que estava de olho nele. E o Raízes do Brasil, que é bem menos empolgante que o CG&S, mas pelo menos não fala que os judeus têm braços atrofiados e dedos como garras pelo manuseio constante do dinheiro. Braços que não servem para trabalhar etc. O que me fez pensar imediatamente no Sr. Burns dos Simpsons. E como boa cristã-nova de quarta geração fiquei indignada pela ofensa aos meus bracinhos. E ontem descobri as obras completas do Machado de Assis em uma superpromoção, e avisei ao Maridinho que seria um ótimo presente de aniversário. Valendo pelos próximos três anos, porque apesar da promoção achei caro pra burro. O pior é que tem tudo do Machadão na rede (menos fotos de nu frontal). Só que eu sou viciada no cheiro de papel novo e só o Machado em papel é que dá para levar pra cama (licença poética, Maridinho).
Então na verdade esse meu fervor anti-consumista é meio fachada, né? Se bem que livros bons não são consumo: são investimento. He.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O Caso da Normatização da Moda
Uma das coisas que vendem para nós, mulheres, é que o fato de a gente ter muito mais opções do que os homens para nos vestirmos é a maior vantagem. Ando achando que não é beeem assim. É verdade que em muitos eventos podemos usar roupas fresquinhas enquanto eles torram no terno. Mas, por outro lado, nos dias frios a gente pena para arranjar um modelito de festa adequado, e eles ficam bem confortáveis.
A questão é que a variedade de opções não significa que possamos escolher livremente como a gente quer se apresentar. Ao contrário: existem montes de regras que precisamos seguir. Da cor que nos favorece à estampa que nos cai bem. Do que está na moda versus o que é tão estação passada. E, o mais ofensivo, o que devemos usar para “disfarçar” nossos “pontos fracos”, sendo que é tudo ponto fraco: muita altura, pouca altura, muito peso, pouco peso, muito peito, pouco peito, muito quadril, pouca cintura, e lá se vai a lista interminável que nos conta como nossos corpos são imperfeitos e como precisamos lutar para melhorá-los. Auto-estima, oi?
(Enquanto isso, os homens não questionam seus corpos. As revistas que eles lêem não dizem para eles que pescoços longos devem ser disfarçados com golas retas e pescoços curtos, valorizados com decotes V. Ou que o corte de cabelo tem de pôr em evidência as maçãs do rosto mas esconder orelhas de abano.)
Como vocês podem ter percebido, eu sou especialista nessas regrinhas. Então eu não estou dizendo que elas são tolas porque não as compreendo. Eu as compreendo muitíssimo bem, obrigada, e já as usei fartamente (em “proveito” próprio e alheio). E agora estou achando que elas são tolas. Porque, de novo, elas demandam tempo e dinheiro e esforço para um resultado, bem, imediatamente satisfatório mas não muito compensador a longo prazo. Porque os homens não têm de se preocupar com isso, e conseqüentemente gastam esse tempo, dinheiro e esforço em coisas no mínimo mais divertidas. Porque, se você perguntar, metade da população mundial (os homens) não liga a mínima se a nossa roupa é tendência (aparentemente, eles só ligam para os decotes e as mini-saias). Quem liga, aplaude, critica e faz listas de certo e errado em revistas são, na maior parte, as mulheres.
Então, de novo, a minha teoria simplificante funciona bem. Se você tem um monte de calças e camisas, ou saias e blusas, que combinam todas entre si, você não tem de quebrar a cabeça toda vez que for sair de casa. Se seus sapatos são confortáveis e básicos, você não tem de se preocupar se as proporções ficaram adequadas ou se você vai ficar muito tempo de pé. E nada impede que todas essas calças e saias e blusas e sapatos sejam lindos na sua opinião e você os adore.
A questão é que a variedade de opções não significa que possamos escolher livremente como a gente quer se apresentar. Ao contrário: existem montes de regras que precisamos seguir. Da cor que nos favorece à estampa que nos cai bem. Do que está na moda versus o que é tão estação passada. E, o mais ofensivo, o que devemos usar para “disfarçar” nossos “pontos fracos”, sendo que é tudo ponto fraco: muita altura, pouca altura, muito peso, pouco peso, muito peito, pouco peito, muito quadril, pouca cintura, e lá se vai a lista interminável que nos conta como nossos corpos são imperfeitos e como precisamos lutar para melhorá-los. Auto-estima, oi?
(Enquanto isso, os homens não questionam seus corpos. As revistas que eles lêem não dizem para eles que pescoços longos devem ser disfarçados com golas retas e pescoços curtos, valorizados com decotes V. Ou que o corte de cabelo tem de pôr em evidência as maçãs do rosto mas esconder orelhas de abano.)
Como vocês podem ter percebido, eu sou especialista nessas regrinhas. Então eu não estou dizendo que elas são tolas porque não as compreendo. Eu as compreendo muitíssimo bem, obrigada, e já as usei fartamente (em “proveito” próprio e alheio). E agora estou achando que elas são tolas. Porque, de novo, elas demandam tempo e dinheiro e esforço para um resultado, bem, imediatamente satisfatório mas não muito compensador a longo prazo. Porque os homens não têm de se preocupar com isso, e conseqüentemente gastam esse tempo, dinheiro e esforço em coisas no mínimo mais divertidas. Porque, se você perguntar, metade da população mundial (os homens) não liga a mínima se a nossa roupa é tendência (aparentemente, eles só ligam para os decotes e as mini-saias). Quem liga, aplaude, critica e faz listas de certo e errado em revistas são, na maior parte, as mulheres.
Então, de novo, a minha teoria simplificante funciona bem. Se você tem um monte de calças e camisas, ou saias e blusas, que combinam todas entre si, você não tem de quebrar a cabeça toda vez que for sair de casa. Se seus sapatos são confortáveis e básicos, você não tem de se preocupar se as proporções ficaram adequadas ou se você vai ficar muito tempo de pé. E nada impede que todas essas calças e saias e blusas e sapatos sejam lindos na sua opinião e você os adore.
sábado, 2 de janeiro de 2010
O Caso da Teoria e da Prática
Ando navegando alegremente pelo meu novo sistema feminista. O interessante é que, quando a gente começa a praticar a reflexão, ela acaba se estendendo para outras áreas. No meu caso, a área que está na berlinda é a do consumo como reflexão de valor. Assim: para as pessoas te considerarem, você tem de ter ao menos um carro X, um apartamento Y, e uns acessórios LV.
(Pausa: acho que isso tem tudo a ver com a relutância de muitas mulheres de se livrarem dos enfeites femininos. Porque cabelão liso, bijoux várias, bolsa de marca e roupa da moda são, em nossa sociedade, sinal de poder financeiro, né? E no Brasil parece que quem tem cara de rico é mais bem-tratado.)
Ando concluindo que isso é uma bobagem. Que ter e ser não andam necessariamente juntos (ou separados). Que se algumas pessoas não quiserem ser minhas amigas por causa disso, então eu também não quero nada com elas, obrigada.
Ando achando que moro em um apartamento grande demais. Que tenho sapatos e bolsas demais. Que minha vida tem coisas demais, e olha que eu sou bem econômica e não muito consumista. (Só livros e fotos de viagem eu nunca acho que são demais.)
Meu novo jeito desapegado de ser funciona muitíssimo bem onde moro, uma cidade do interior sem muitas opções e mais para pobre do que para rica. Só que Maridinho está fazendo concursos, e é muito provável que no curso de 2010 a gente se realoque em uma capital.
Então ficamos pensando em alugar um apartamento menor, não só porque aqui sobra espaço mas também porque em uma cidade grade o aluguel é entre duas e três vezes mais caro. Hoje decidimos trocar de carro (o nosso é um médio, bom para pegar a estrada até BH) por uma versão mais econômica e compacta, depois da mudança. E não precisa nem dizer que pretendo continuar seguindo meu esquema altamente simplificado (inspirado no Maridinho) de moda e beleza.
Entretanto, não deixo de me perguntar como os meus princípios vão se comportar em um ambiente hostil. Será que, em um local de trabalho em que o habitual é tailleur e maquiagem pesada, vou acabar retornando aos cosméticos e acessórios? Será que, em uma cidade onde a norma é a ostentação de riqueza, eu vou começar a achar que carrões e apartamentaços são essenciais à minha felicidade?
Espero que não. Acho que não. Mas tô de olho, ó.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
O Caso da Emergência
Pessoal, larguem tudo e vão ler Backlash. É uma aula sobre jornalismo, sobre como a mídia pode ser preguiçosinha e tendenciosa, sobre como a gente pode analisar uma notícia e verificar se ela tem fundamento ou não. E sobre feminismo também, hehe.
Tá aqui a versão digital do livro (presentim de natal do http://www.midiaindependente.org/). Está em português, é uma delícia de ler, e além do mais é de graça!
(Aviso aos navegantes: trata-se de obra esgotada no Brasil. Assim que houver uma nova edição, é só me avisarem que eu tiro o link.)
Tá aqui a versão digital do livro (presentim de natal do http://www.midiaindependente.org/). Está em português, é uma delícia de ler, e além do mais é de graça!
(Aviso aos navegantes: trata-se de obra esgotada no Brasil. Assim que houver uma nova edição, é só me avisarem que eu tiro o link.)
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
O Caso da Aparência Atual
Eu digo que não uso mais maquiagem, e as pessoas imediatamente passam a achar que eu vou andar esfarrapada. Traje de luxo sendo, claro, moletom e havaianas, para usar em casamentos.
Não é bem assim. No início do meu feminismo prático, eu tive um momento de iluminação sobre um mundo no qual a aparência não importaria e seríamos julgados por nossos eus interiores (aquele que cosmético nenhum dá conta de embelezar). Depois achei que o planeta não estava pronto para isso. E me conformei em seguir os padrões estéticos exigidos do homem ocidental.
Roupa limpa, não-amassada, nem muitos números acima ou abaixo do seu. Sapatos confortáveis de cores neutras. Unhas limpas e curtas (corto umas duas vezes por semana). Cabelo curto (não muito, por enquanto) e penteado. Vestimentas que não apertem, piniquem, restrinjam os movimentos ou prendam a circulação.
Continuo parecendo mulher. Continuo tendo peito (pouco), quadril (muito) e voz fina. E também continuo sem entender por que cargas d'água é tão importante reconhecer o gênero de uma pessoa a metros de distância. É pra discriminar melhor?
Não é bem assim. No início do meu feminismo prático, eu tive um momento de iluminação sobre um mundo no qual a aparência não importaria e seríamos julgados por nossos eus interiores (aquele que cosmético nenhum dá conta de embelezar). Depois achei que o planeta não estava pronto para isso. E me conformei em seguir os padrões estéticos exigidos do homem ocidental.
Roupa limpa, não-amassada, nem muitos números acima ou abaixo do seu. Sapatos confortáveis de cores neutras. Unhas limpas e curtas (corto umas duas vezes por semana). Cabelo curto (não muito, por enquanto) e penteado. Vestimentas que não apertem, piniquem, restrinjam os movimentos ou prendam a circulação.
Continuo parecendo mulher. Continuo tendo peito (pouco), quadril (muito) e voz fina. E também continuo sem entender por que cargas d'água é tão importante reconhecer o gênero de uma pessoa a metros de distância. É pra discriminar melhor?
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