Eu fui uma criança pulativa de cabelo curto, que só usava vestidinhos rendados em ocasiões especiais. Fui adotar bolsa e saia na adolescência, muito contra a vontade. Sempre gostei mais de calça comprida, porque eu vivo sentando em cima das pernas ou de perna cruzada igual índio, mesmo na cadeira da sala de aula ou do trabalho. E nunca hesito mais de cinco segundos antes de esparramar no chão, em qualquer lugar que haja filas e não assentos.
Apesar disso, houve um momento, entre os vinte e poucos e os trinta e poucos anos, que me entreguei inteira à busca da elegância e da beleza. Uma justificativa é o fato de minha mãe nunca ter sido vaidosa, e essa ter sido uma espécie de rebelião (meio fraca, é verdade, porque tenho duas irmãs que nunca exageraram na dose).
O que me consola é que meu pão-durismo nunca me abandonou. Eu não era de comprar muito e deixei de fazer luzes no cabelo quando achei que o preço tinha subido demais. Então jamais fiquei no vermelho por causa das vaidades. Mas gastava sem dó o meu bem mais precioso – tempo – lendo e pesquisando e pensando a respeito, montando combinações e investigando lançamentos.
A luzinha de alerta de que eu estava exagerando começou a piscar quando passei quase uma hora numa farmácia em Budapeste bisbilhotando perfumes e cosméticos qu estavam com o preço em conta. Sendo que eu e Maridinho tínhamos um único dia para ficar na cidade, tendo viajado quatro horas para ir e já sabendo que íamos gastar quatro horas para voltar. O resultado é que deixamos de ver coisas muito mais legais.
Uma segunda luzinha piscou quando eu li no blogue da Lola que uma porcentagem grande de mulheres acometidas de calvície na Inglaterra já tinha considerado o suicídio. E isso me pareceu tão triste e vão. E meu cabelo estava caindo que era uma coisa, mesmo após várias consultas e tratamentos. Aí eu decidi que eu não queria nem pensar em considerar a possibilidade, e a melhor maneira de fazer isso era separar meu valor pessoal da minha aparência.
Não foi tão difícil, porque eu já tinha mais de trinta e estabilidade afetiva e financeira. (Aparte: em análise retroativa, percebo que a vaidade não foi parte decisiva em nada disso. Nem na afetiva, gente: Maridinho me namorou magrela, de aparelho fixo, de blusa de plush verde-limão, e minhas incursões fashion nunca fizeram diferença pra ele.)
Sim, eu podia ter diminuído a dose da vaidade um tanto e pronto. Mas não, eu não sei fazer as coisas sem exagerar. Comecei com um experimento social, para ver se largar maquiagem, secador, esmalte, salto alto e roupas reveladoras fazia diferença na minha vida: não fez e eu continuei alegremente sem os três primeiros, e evitando como dá os dois últimos (porque eu não vou jogar metade do meu guarda-roupa fora, né? Tô conciliando a agenda do feminismo com a agenda do pão-durismo).
Isso não significa que eu não me preocupo absolutamente com a minha apresentação e saio por aí de pijama com manchas de chocolate. Quer dizer que eu tomo os cuidados exigidos do homem ocidental, e isso já me deixa mais arrumada do que os 30% dos homens que não tem noção de combinação de cores.
As vantagens do meu novo estilo de vida são várias: estou usando meus poderes para o bem. Gasto minha memória, minha inteligência e meu tempo lendo livros e textos interessantíssimos e úteis. Estou sempre pronta para qualquer programa. Meus pés não doem mais. Uma espinha não me arrasa. O que me incomoda mesmo são as desigualdades sociais e a misoginia não a falta de estilo das pessoas. Gosto mais de gente. E, o mais legal de tudo, gosto mais de mim.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
O Caso Complicado das Mulheres-Objeto
Tem muitas coisas na nossa sociedade misógina que eu acho uma porcaria, e entre elas está a superexploração da imagem da mulher como objeto sexual para vender, bem, tudo. De automóvel a celular a produto de beleza e a espaço publicitário (aumentando a audiência do programa).
É claro que para isso é necessário um estoque de corpos femininos belos e jovens dispostos a se expor. E o que eu acho disso? Primeiro, eu não acho inofensivo. Acho que reforça os estereótipos de mulher-enfeite, de cidadã de segunda classe que deve ser vista e não ouvida, de que a beleza é a aspiração máxima de cada mulher. (É diferente para os “homens-objeto”: modelos depilados desfilando de sunga não fazem que o eleitorado passe a exigir políticos ou apresentadores de jornal belos e malhados, ou que muitas mulheres arrumem amantes musculosos porque o marido “embarangou”.)
Dito isso, eu entendo perfeitamente que um monte de mulheres ache que ser modelo fotográfico/dançarina na tevê/personagem gostosona de programa humorístico seja a maior vantagem. Porque, de imediato, paga as contas (às vezes muitíssimo bem) e tem uma galera aplaudindo. Para muitas, em uma sociedade que paga menos à mão-de-obra feminina, que acha mais importante educar os filhos do que as filhas, que não estimula nas meninas os talentos esportivos/intelectuais, é um jeito de sobreviver ou progredir financeiramente. Então eu não tenho nada contra as mulheres-fruta e similares. Não as critico como pessoas. Minha crítica é à situação em que elas estão ou foram colocadas. Sendo que o mais cruel é que vira um círculo vicioso: quanto mais a mídia as mostra, mais pessoas acham que isso é a regra, mais meninas querem ser assim quando crescerem, e por aí vai.
Penso na Geyse Arruda. Acho triste que ela tenha sido vítima do patriarcado misógino e, fazendo cirurgias plásticas e saindo nua em revistas masculinas, vá reforçar exatamente o patriarcado misógino. Não estou dizendo que eu, no lugar dela, faria diferente. Ela tem mais é que garantir o dela. Mas que acho triste, acho.
É claro que para isso é necessário um estoque de corpos femininos belos e jovens dispostos a se expor. E o que eu acho disso? Primeiro, eu não acho inofensivo. Acho que reforça os estereótipos de mulher-enfeite, de cidadã de segunda classe que deve ser vista e não ouvida, de que a beleza é a aspiração máxima de cada mulher. (É diferente para os “homens-objeto”: modelos depilados desfilando de sunga não fazem que o eleitorado passe a exigir políticos ou apresentadores de jornal belos e malhados, ou que muitas mulheres arrumem amantes musculosos porque o marido “embarangou”.)
Dito isso, eu entendo perfeitamente que um monte de mulheres ache que ser modelo fotográfico/dançarina na tevê/personagem gostosona de programa humorístico seja a maior vantagem. Porque, de imediato, paga as contas (às vezes muitíssimo bem) e tem uma galera aplaudindo. Para muitas, em uma sociedade que paga menos à mão-de-obra feminina, que acha mais importante educar os filhos do que as filhas, que não estimula nas meninas os talentos esportivos/intelectuais, é um jeito de sobreviver ou progredir financeiramente. Então eu não tenho nada contra as mulheres-fruta e similares. Não as critico como pessoas. Minha crítica é à situação em que elas estão ou foram colocadas. Sendo que o mais cruel é que vira um círculo vicioso: quanto mais a mídia as mostra, mais pessoas acham que isso é a regra, mais meninas querem ser assim quando crescerem, e por aí vai.
Penso na Geyse Arruda. Acho triste que ela tenha sido vítima do patriarcado misógino e, fazendo cirurgias plásticas e saindo nua em revistas masculinas, vá reforçar exatamente o patriarcado misógino. Não estou dizendo que eu, no lugar dela, faria diferente. Ela tem mais é que garantir o dela. Mas que acho triste, acho.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O Caso da União
Eu acho que nós, mulheres, devemos nos unir. Que o constante concurso “quem é a mais bela” é uma tática muito da eficiente e da malvada para nos dividir. Que se for pra competir a gente pode competir pra ver quem é mais bacana, mais divertida, mais inteligente, mais forte, mais rápida.
Por “nos unir” não quero dizer que a gente deve se juntar para falar mal dos homens. Quero dizer que devemos parar de nos criticar. Riscar as palavras “baranga” e “vagabunda” do nosso dicionário. Abandonar as avalições automáticas das aparências alheias. Aceitar que tem mulheres que não querem filhos, e estão bem, e que tem mulheres que querem parar de trabalhar para ficar com os filhos, e que elas também estão bem, obrigada.
Eu sei que é difícil, porque a gente já está habituada a uma série de juízos de valor. Em certas situações o teste “e se fosse homem?” funciona bem. Com ele descobri que, se eu achava lindo um pai deixar o emprego para cuidar de seus filhotes (que meigo! Que dedicado! Que sacrifício!), eu não podia torcer o nariz para mulheres que fazem o mesmo (por mais que eu, particularmente, deteste a idéia). Que se eu penso que o Jesus Luz “está se dando bem” com a Madonna, eu também tenho de pensar que a Luma de Oliveira “estava se dando bem” com o Eike Batista (ou os dois são aproveitadores baratos ou nenhum é). Se eu não tenho eca do Marcos Paulo por ser um pegador generalizado, também não posso ter da Luana Piovanni. E aí vai.
Também ando tentando não supervalorizar a aparência feminina. Isto é, não elogiar a bolsa, a maquiagem, o cabelo das amigas. Elogiar outras coisas: o talento, o trabalho, as conquistas, o conhecimento. A primeira parte é difícil, porque a troca de comentários sobre roupa/peso/acessórios funciona como linguagem universal para muitas mulheres. A segunda parte também, porque aqueles itens não saltam aos olhos quando você acaba de ser apresentado à pessoa, a não ser que seja ao final de uma palestra que ela deu, por exemplo. Mas vou tentando.
Por “nos unir” não quero dizer que a gente deve se juntar para falar mal dos homens. Quero dizer que devemos parar de nos criticar. Riscar as palavras “baranga” e “vagabunda” do nosso dicionário. Abandonar as avalições automáticas das aparências alheias. Aceitar que tem mulheres que não querem filhos, e estão bem, e que tem mulheres que querem parar de trabalhar para ficar com os filhos, e que elas também estão bem, obrigada.
Eu sei que é difícil, porque a gente já está habituada a uma série de juízos de valor. Em certas situações o teste “e se fosse homem?” funciona bem. Com ele descobri que, se eu achava lindo um pai deixar o emprego para cuidar de seus filhotes (que meigo! Que dedicado! Que sacrifício!), eu não podia torcer o nariz para mulheres que fazem o mesmo (por mais que eu, particularmente, deteste a idéia). Que se eu penso que o Jesus Luz “está se dando bem” com a Madonna, eu também tenho de pensar que a Luma de Oliveira “estava se dando bem” com o Eike Batista (ou os dois são aproveitadores baratos ou nenhum é). Se eu não tenho eca do Marcos Paulo por ser um pegador generalizado, também não posso ter da Luana Piovanni. E aí vai.
Também ando tentando não supervalorizar a aparência feminina. Isto é, não elogiar a bolsa, a maquiagem, o cabelo das amigas. Elogiar outras coisas: o talento, o trabalho, as conquistas, o conhecimento. A primeira parte é difícil, porque a troca de comentários sobre roupa/peso/acessórios funciona como linguagem universal para muitas mulheres. A segunda parte também, porque aqueles itens não saltam aos olhos quando você acaba de ser apresentado à pessoa, a não ser que seja ao final de uma palestra que ela deu, por exemplo. Mas vou tentando.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O Caso da Energia
Pensei uma coisa aqui: e se, historicamente, esse excesso de regras e modelos aplicados à mulher (tanto quanto ao comportamento quanto à aparência) não é também uma maneira de canalizar a energia e a criatividade que as mulheres, como todos os seres humanos, têm em quantidades consideráveis, para atividades pouco construtivas e nada revolucionárias?
Falo por mim. De como eu estava usando minha curiosidade e minha memória para estocar um grande número de conhecimentos sobre celebridades, moda e maquiagem. E de como eu os usava para ficar muito chique, muito bela e muito atualizada, e de que como isso não me servia pra absolutamente nada, a não ser para receber alguns elogios a respeito de como eu me vestia bem.
Poxa, é isso que eu quero no meu epitáfio? “Ela se vestia bem”? (Não que eu vá ter um epitáfio: prefiro ser cremada, obrigada, e se eu morrer lá longe não precisa repatriar meu corpo nem nada. Se quiserem se lembrar de mim é só folhear minhas pilhas de livros com manchas de chocolate nas páginas.)
Não estou dizendo que eu não me sentia “bem” com tudo isso. Que eu não adorava chegar a uma festa e me achar uma das convidadas mais elegantes de todas (não quer dizer que eu fosse, tá? Mas achava.) O que estou questionando é o trabalho danado que dava para eu me sentir “bem”. E como era um sentimento volátil, porque era só aparecer uma espinha na testa ou um pneuzinho na cintura para ele ir embora.
Aí eu não consigo deixar de pensar nos montes de blogues sobre moda/maquiagem/celebridades. Que eu já gostei muito de freqüentar mas que, hoje em dia, me cansam. Acho que as pessoas que fazem esses blogues são capazes, dedicadas, inteligentes, cheias de idéias, tudo de bom. E não consigo deixar de achar que todas essas ótimas qualidades podiam estar sendo usadas, sei lá, de tantas outras maneiras. De um jeito mais contestador, mais questionador, menos status quo.
Eu sei, eu sei, é diversão, e da diversão só se exige que entretenha. Mas fico desconfiada que muito poder cerebral está sendo canalizado para atividades pouco construtivas e nada revolucionárias.
Falo por mim. De como eu estava usando minha curiosidade e minha memória para estocar um grande número de conhecimentos sobre celebridades, moda e maquiagem. E de como eu os usava para ficar muito chique, muito bela e muito atualizada, e de que como isso não me servia pra absolutamente nada, a não ser para receber alguns elogios a respeito de como eu me vestia bem.
Poxa, é isso que eu quero no meu epitáfio? “Ela se vestia bem”? (Não que eu vá ter um epitáfio: prefiro ser cremada, obrigada, e se eu morrer lá longe não precisa repatriar meu corpo nem nada. Se quiserem se lembrar de mim é só folhear minhas pilhas de livros com manchas de chocolate nas páginas.)
Não estou dizendo que eu não me sentia “bem” com tudo isso. Que eu não adorava chegar a uma festa e me achar uma das convidadas mais elegantes de todas (não quer dizer que eu fosse, tá? Mas achava.) O que estou questionando é o trabalho danado que dava para eu me sentir “bem”. E como era um sentimento volátil, porque era só aparecer uma espinha na testa ou um pneuzinho na cintura para ele ir embora.
Aí eu não consigo deixar de pensar nos montes de blogues sobre moda/maquiagem/celebridades. Que eu já gostei muito de freqüentar mas que, hoje em dia, me cansam. Acho que as pessoas que fazem esses blogues são capazes, dedicadas, inteligentes, cheias de idéias, tudo de bom. E não consigo deixar de achar que todas essas ótimas qualidades podiam estar sendo usadas, sei lá, de tantas outras maneiras. De um jeito mais contestador, mais questionador, menos status quo.
Eu sei, eu sei, é diversão, e da diversão só se exige que entretenha. Mas fico desconfiada que muito poder cerebral está sendo canalizado para atividades pouco construtivas e nada revolucionárias.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O Caso dos Cabelos Curtos
Gente, tive uma revelação: quem tem cabelo curto não tem estresse com o cabelo! E olha que o meu nem é tão curtinho assim (tem uns fiapos perto das orelhas e na nuca que eu vou eliminar da próxima vez que for cortar).
Eu lavo rapidinho (e nem uso condicionador!), esfrego a toalha, penteio e pronto. Não preciso de secador. Durmo com ele molhado. Saio com ele na chuva.
E ele fica lá, na dele, porque ele é curto!
Nem uso pente todo dia. Não prendo nunca (não tem o que prender). Tô sempre arrumadinha.
O único inconveniente é cortar com freqüência, porque senão os fiapos crescem e começam a se rebelar. Mas eles estão com dias contados, estou confiante que não vou precisar bater ponto no salão tantas vezes assim.
Ou então eu arrumo um barbeiro, né? Também resolve.
Eu lavo rapidinho (e nem uso condicionador!), esfrego a toalha, penteio e pronto. Não preciso de secador. Durmo com ele molhado. Saio com ele na chuva.
E ele fica lá, na dele, porque ele é curto!
Nem uso pente todo dia. Não prendo nunca (não tem o que prender). Tô sempre arrumadinha.
O único inconveniente é cortar com freqüência, porque senão os fiapos crescem e começam a se rebelar. Mas eles estão com dias contados, estou confiante que não vou precisar bater ponto no salão tantas vezes assim.
Ou então eu arrumo um barbeiro, né? Também resolve.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O Caso do Feminismo Aplicado às Outras Pessoas
Tem uma moça que trabalha comigo que é muito batalhadora. Ela sempre quis fazer Direito. Aqui na região só tem faculdade particular e ela ganha pouco mais que o salário mínimo. E tem dois filhos pequenos. Então ela estudou, pediu ajuda em matemática para um colega e em redação pra mim, fez o Enem, passou no vestibular e fez de tudo para conseguir bolsa, mas não deu.
E ela desanimou? Nada! Todo mês ela promovia uma rifa de um bolo ou torta deliciosos que ela faz, e dava jeito de pagar as mensalidades. Aí o marido começou a implicar, achando que ela estava muito ambiciosa e que ia para a faculdade paquerar. Terminou com ela, sumiu no mundo, e adivinha se pagava pensão para os meninos? Pois é, não.
Ela conseguiu terminar o primeiro período e teve de parar o curso. Mas me contou, toda animada, que ia usar o dinheiro da rescisão de um contrato de trabalho para pagar umas matérias no próximo semestre.
Fiquei pensando que ela é muito guerreira. E que, poxa, com uma ajudinha, vai longe – e leva os filhos longe também. E que se eu estou preocupada em mudar o mundo com o feminismo, dar apoio a uma mulher é um ótimo meio de começar.
A primeira idéia que eu tive foi ajudar a bancar o curso de Direito. Só que eu devo mudar de cidade no fim do ano, e aí fica difícil de acompanhar.
Aí conversei com ela a respeito de concursos. Ela já estava inscrita em dois. Pronto, resolvido: decidi patrocinar um cursinho preparatório bala. Passando, ela fica independente logo, não só lá depois de formada. Mesmo se ela não passar de cara, o cursinho tem aula de matemática, português e um monte de direitos, que são úteis para a vida e para a faculdade também, quando ela retomar.
Ela ficou muito feliz com a idéia.
E eu também.
E ela desanimou? Nada! Todo mês ela promovia uma rifa de um bolo ou torta deliciosos que ela faz, e dava jeito de pagar as mensalidades. Aí o marido começou a implicar, achando que ela estava muito ambiciosa e que ia para a faculdade paquerar. Terminou com ela, sumiu no mundo, e adivinha se pagava pensão para os meninos? Pois é, não.
Ela conseguiu terminar o primeiro período e teve de parar o curso. Mas me contou, toda animada, que ia usar o dinheiro da rescisão de um contrato de trabalho para pagar umas matérias no próximo semestre.
Fiquei pensando que ela é muito guerreira. E que, poxa, com uma ajudinha, vai longe – e leva os filhos longe também. E que se eu estou preocupada em mudar o mundo com o feminismo, dar apoio a uma mulher é um ótimo meio de começar.
A primeira idéia que eu tive foi ajudar a bancar o curso de Direito. Só que eu devo mudar de cidade no fim do ano, e aí fica difícil de acompanhar.
Aí conversei com ela a respeito de concursos. Ela já estava inscrita em dois. Pronto, resolvido: decidi patrocinar um cursinho preparatório bala. Passando, ela fica independente logo, não só lá depois de formada. Mesmo se ela não passar de cara, o cursinho tem aula de matemática, português e um monte de direitos, que são úteis para a vida e para a faculdade também, quando ela retomar.
Ela ficou muito feliz com a idéia.
E eu também.
sábado, 30 de janeiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O Caso da Beleza e da Feminilidade
Deixa eu explicar: eu quero ser bonita e feminina, sim. Mas quero ser bonita e feminina nos meus termos: de cabelo curto, de calça comprida, de sapato baixo, de unha sem esmalte, de rosto sem maquiagem, mandona, briguenta, teimosa, pão-dura, trabalhando enquanto o Maridinho estuda, sem saber cozinhar, sem ligar pra criança, sem ver novela, sem chilique, sem frescura, e achando que todo mundo pode ser o que quiser do jeito que quiser também.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
O Caso da Infantilização
Já li em mais de uma revista que os cabelos louros fazem tanto sucesso porque muitas crianças nascem de cabelo claro, que escurece depois. Logo, a lourice seria um sinal de juventude. (Nem vamos discutir o fato de que o fato só deve ser verdadeiro para europeus não-ibéricos e descendentes. Na maior parte do Brasil acho que não acontece muito.)
Rigorosamente falando, cabelo louro, nesse contexto, não é bem sinal de juventude, né? É sinal de infância mesmo, ou no máximo de pré-adolescência. Aí fiquei pensando como muitos dos rituais de embelezamento aos quais a mulher atual submete seu corpo, ao fim e ao cabo, servem para torná-la semelhante a uma criança.
A depilação deixa pernas, axilas e virilha totalmente livre de pelos – isso quando não elimina os pelos púbicos também, o que parece que está na moda. Os hidratantes fazem a pele do corpo ficar fina e macia. Os ácidos e vitaminas exterminam rugas, manchas e marcas de expressão. A maquiagem deixa a pele do rosto uniforme, aumenta os olhos, alonga os cílios, colore os lábios. A tintura esconde os fios brancos e os condicionadores deixam os cabelos sedosos.
Uma ou outra coisa seria inofensivo. Tudo junto fica meio assustador.
Rigorosamente falando, cabelo louro, nesse contexto, não é bem sinal de juventude, né? É sinal de infância mesmo, ou no máximo de pré-adolescência. Aí fiquei pensando como muitos dos rituais de embelezamento aos quais a mulher atual submete seu corpo, ao fim e ao cabo, servem para torná-la semelhante a uma criança.
A depilação deixa pernas, axilas e virilha totalmente livre de pelos – isso quando não elimina os pelos púbicos também, o que parece que está na moda. Os hidratantes fazem a pele do corpo ficar fina e macia. Os ácidos e vitaminas exterminam rugas, manchas e marcas de expressão. A maquiagem deixa a pele do rosto uniforme, aumenta os olhos, alonga os cílios, colore os lábios. A tintura esconde os fios brancos e os condicionadores deixam os cabelos sedosos.
Uma ou outra coisa seria inofensivo. Tudo junto fica meio assustador.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
O Caso dos Passatempos
Ando percebendo que eu passava um certo tempo da minha vida lendo revistas femininas, vendo programas de celebridades, assistindo a séries de transformações e navegando em sites de moda.
Era um jeito de passar o tempo, e tão válido quanto qualquer outro (exceto pelo fato de que eu cheguei a acreditar que eu realmente precisava ter uma bolsa Chanel 2.55 e perder dois quilos. Mas deve ter gente que não é tão influenciável quanto eu.) Agora que não estou me interessando mais por essas coisas, eu teria ficado com bastante tempo livre, e talvez não soubesse o que fazer com ele. A sorte é que em fevereiro vou para a Austrália no intercâmbio profissional de um mês, e decidi estudar sobre o Brasil para não passar vergonha lá fora.
Eu fui uma boa aluna na escola (bem caxias e bem-comportada), e fiz provas abertas de Geografia e História no vestibular (e passei). Então eu devia saber alguma coisa a respeito. Mas a verdade é que, se eu soube, já esqueci quase tudo. Estou achando meus estudos a maior novidade.
Talvez simplesmente os livros de 15 anos atrás fossem chatos e burocráticos, e os de hoje sejam muito mais dinâmicos e críticos. Talvez eu esteja mais madura e mais culta agora. Só sei que estou me divertindo um bocado, e não me lembro de ter me divertido com as matérias do segundo grau.
Enfim, a conclusão a que eu cheguei é que, se a gente quer mudar de vida, tem de mudar de vida. Seria muito mais difícil abrir mão dos intensos cuidados estéticos femininos se eu continuasse assistindo a todos os programas que dizem que a aspiração maior da mulher é à beleza, com intervalos comerciais que dizem a mesma coisa, e ainda dão a receita do sucesso. A verdade é que coisas que antes me divertiam, como “o tapete vermelho do Oscar”, hoje me deixam irritada – por que as atrizes têm de se embonecar feito loucas, e os atores podem usar ternos/smokings, às vezes nem fazer a barba, e está bom?
(Uma vez vi um especial sobre como as atrizes se preparam para os grandes eventos: dieta rigorosíssima, exercícios em nível militar, tratamentos estéticos de montão e, como a magreza corporal hollywoodiana deixa o rosto encovado, dá-lhe injeções de silicone para tirar o aspecto de refugiado de guerra. E depois tem todo o drama do vestido, do sapato, da maquiagem, do cabelo, das jóias etc. etc.)
Então hoje em dia eu não vejo mais tapete vermelho do Oscar, nem Esquadrão da Moda, nem E!Special, sabe? Porque não me acrescenta nada. Ao contrário.
E além disso eu tenho um monte de outras coisas legais pra fazer!
Era um jeito de passar o tempo, e tão válido quanto qualquer outro (exceto pelo fato de que eu cheguei a acreditar que eu realmente precisava ter uma bolsa Chanel 2.55 e perder dois quilos. Mas deve ter gente que não é tão influenciável quanto eu.) Agora que não estou me interessando mais por essas coisas, eu teria ficado com bastante tempo livre, e talvez não soubesse o que fazer com ele. A sorte é que em fevereiro vou para a Austrália no intercâmbio profissional de um mês, e decidi estudar sobre o Brasil para não passar vergonha lá fora.
Eu fui uma boa aluna na escola (bem caxias e bem-comportada), e fiz provas abertas de Geografia e História no vestibular (e passei). Então eu devia saber alguma coisa a respeito. Mas a verdade é que, se eu soube, já esqueci quase tudo. Estou achando meus estudos a maior novidade.
Talvez simplesmente os livros de 15 anos atrás fossem chatos e burocráticos, e os de hoje sejam muito mais dinâmicos e críticos. Talvez eu esteja mais madura e mais culta agora. Só sei que estou me divertindo um bocado, e não me lembro de ter me divertido com as matérias do segundo grau.
Enfim, a conclusão a que eu cheguei é que, se a gente quer mudar de vida, tem de mudar de vida. Seria muito mais difícil abrir mão dos intensos cuidados estéticos femininos se eu continuasse assistindo a todos os programas que dizem que a aspiração maior da mulher é à beleza, com intervalos comerciais que dizem a mesma coisa, e ainda dão a receita do sucesso. A verdade é que coisas que antes me divertiam, como “o tapete vermelho do Oscar”, hoje me deixam irritada – por que as atrizes têm de se embonecar feito loucas, e os atores podem usar ternos/smokings, às vezes nem fazer a barba, e está bom?
(Uma vez vi um especial sobre como as atrizes se preparam para os grandes eventos: dieta rigorosíssima, exercícios em nível militar, tratamentos estéticos de montão e, como a magreza corporal hollywoodiana deixa o rosto encovado, dá-lhe injeções de silicone para tirar o aspecto de refugiado de guerra. E depois tem todo o drama do vestido, do sapato, da maquiagem, do cabelo, das jóias etc. etc.)
Então hoje em dia eu não vejo mais tapete vermelho do Oscar, nem Esquadrão da Moda, nem E!Special, sabe? Porque não me acrescenta nada. Ao contrário.
E além disso eu tenho um monte de outras coisas legais pra fazer!
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