quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Caso dos Cabelos de Prata

Mais um bonito fio platinado apareceu, dessa vez no alto da cabeça. O legal é que esses fios são meio espetados, o que quer dizer que eventualmente me livrarei da minha cabeleira lambida original e finalmente terei um pouco de volume.

 
Estou até pensando em deixar o cabelo crescer para mostrar ao mundo sua beleza. Sério. Se quando as pessoas envelhecessem os fios ficassem, sei lá, azuis, ninguém ia ter preconceito com os cabelos brancos. Com certeza ia ter muita gente fazendo luzes prateadas no salão.
 
É tudo uma questão de nome, gente. Se cabelo louro fosse chamado de amarelo, e o nome das tinturas não fosse "champanhe" e "mel", mas "vinagre" e "gema de ovo", ou "placa bacteriana" e "hepatite", o glamour ia ser muito menor, garanto.
 
O meu cabelo é castanho-escuro e acho muito legal ter fios de cores diferentes. Já paguei vários dígitos a cabelereiros para conseguir mechas "manteiga rançosa" e "cerveja passada". Agora a natureza quer me dar lindos reflexos da cor do luar. E de graça! Vê lá se eu vou passar tinta em cima. 

O Caso do Aviso

A irmã I. me contou que eu posso fazer postagens por e-mail. É muito prático e eu vou adotar. Isso significa que não visitarei o blogue com tanta freqüência e posts novos podem surgir antes das respostas aos comentários dos posts antigos.
 

(Só pra vocês não acharem que sou uma esnobe horrível que não responde aos comentários. Eu sou uma esnobe horrível, mas respondo aos comentários.)

 

terça-feira, 27 de julho de 2010

O Caso do Corpo Útil

Sempre fui péssima em esportes. Mas ninguém se preocupava com isso, porque, afinal, eu era uma criança magrela. O povo queria era que eu comesse mais e me agitasse menos.


Minha preocupação com o corpo começou lendo Capricho e continuou por meio da revista Cláudia e da revista Nova. Elas queriam que eu tivesse uma pele lisa e uniforme e nada de gorduras localizadas. Como alcançar o ideal? Fazendo tratamentos estéticos e usando produtos de beleza, claro (olá, consumo!). Quando aparecia alguma indicação de atividade física, o objetivo era só perder peso.


Há três anos anos achei que não estava tão magra quanto habitualmente e acompanhei o Maridinho em uma dieta. Perdi cinco quilos, o equivalente a quase 10% do meu peso. Não fez diferença alguma em minha vida, a não ser na satisfação de comprar roupas tamanho 36. E isso lá é conquista que faça alguém se orgulhar? Fala sério. Não é como se eu tivesse perdido peso por motivos de saúde. Foi pura vaidade.


Enquanto isso, continuei descoordenada, fraquinha, sem fôlego e sem consciência corporal. Mas isso não importa, porque afinal de contas eu sou magra, né?


Pois é, cansei. Eu não quero mais um corpo magro, eu quero um corpo útil. Que tenha força e coordenação, que consiga carregar pesos grande não fique batendo em quinas por aí. Que, em caso de necessidade, consiga me defender.


Ou, no pior dos casos, sair correndo.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Caso da Riqueza

Eu ando me sentindo muito rica e privilegiada ultimamente. E nem tive aumento ou recebi herança: é porque comecei a estudar um pouco de história e a me interessar pelo mundo que vai além do meu umbigo e percebi que minhas condições de vida são superiores a uma fatia gigante da população. Brasileira, porque mundial, então, nem se fala: tem guerras civis, conflitos étnicos e bolsões de miséria pelo planeta, enquanto eu fico aqui bem quentinha na minha casa segura e meu salário regular.

A primeira consequência dessa percepção é que eu não reclamo mais de quase nada. Porque, pensando bem, a maior parte dos meus "problemas" é ridícula. Achar ruim os azulejos coloridos das cozinhas dos apês em Brasília? Fala sério, né.

A segunda consequência é pensar o que eu posso fazer para mudar as coisas. Ajudar os outros é ótimo, mas não resolve. Dei outro aumento pra minha faxineira, dessa vez de 50%, mas olha só, ela teve aumento porque eu quis. As pessoas não deviam precisar depender da boa-vontade alheia para melhorar um pouquinho de condição. Eu não precisei: estudei em escola boa, tive apoio dos meus pais, fiz faculdade pública e arrumei um emprego bom.

Então a primeira coisa que eu vou fazer é votar em candidatos de esquerda, que se preocupam com o social e a distribuição de renda. Porque, no Brasil, ela está concentradíssima, não tenham a menor dúvida.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Caso do Bagulhismo

Eu não sei se é porque, quando eu era pequena, tinha de dividir tudo com a irmã D.; ou se é porque minha mãe adota o lema “quem guarda tem”. Só sei é que sempre fui adepta do bagulhismo radical, isto é, da capacidade de nunca jogar nada fora, e ainda requisitar o que os outros querem dar fim.

Isso é passado. Depois que arrumei um maridinho minimalista, fui percebendo que não precisava guardar todas as caixas vazias dos presentes de casamento (eu me agarrei a elas durante umas boas semanas), nem todas as revistas que eu compro, nem todos os livros que ganho. O que não quer dizer que virei uma pessoa totalmente desprendida – a roupas, como já contei, sou mais apegada -, mas melhorei bastante. Juro.

Mesmo assim, os preparativos da mudança estão sendo uma prova de fogo. Se dependesse do Maridinho, ele ia só com a roupa do corpo, o computador e a televisão. Já eu fico tentando avaliar se, na nossa nova vida, vamos precisar justamente naquele negocinho que, aqui, passamos seis meses sem usar.

Maridinho me convenceu facilmente a doar a bicicleta ergométrica e pesinhos e caneleiras do tempo do onça, mas fico dividida quanto aos itens de cozinha. Tudo bem que as nossas habilidades culinárias atuais se restringem a brigadeiro, ovo mexido e sanduíche, mas vai que em Brasília viramos gourmets? Lá tem um monte de lugares que vendem ingredientes diferentes e interessantes, oras.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Caso dos Conselhos

Eu tenho não só a petulância de achar que sei o que é melhor para a vida das pessoas, como também o mau hábito de contar para elas. Não é que elas peçam conselhos, não: eu é que viro na lata e falo "ó, se você fizer assim é melhor". Ultimamente tenho amaciado minhas preleções com introduções do tipo "ah, mas você já pensou nisso e naquilo?". Mas não desisto fácil: se a pessoa disser "já", eu continuo empilhando razões para convencê-la do meu ponto de vista.

Surpreendentemente, até agora ninguém me bateu. Talvez porque percebam que as minhas intenções são puras. Talvez porque achem mais fácil fingir que me dão razão e encerrar a conversa.

Em minha defesa, adianto que meus argumentos são geralmente racionais, lógicos, econômicos e pacifistas. Ainda assim, quero perder essa mania. É arrogância achar que sei mais do que cada um. Tenho de aprender a respeitar a autonomia das pessoas (argh!).

Agora, se me pedirem conselhos, aí são outros quinhentos. Estou liberada para dar minhas opiniões. E darei, muitas. Até porque vou ter várias acumuladas, né?

domingo, 27 de junho de 2010

O Caso do Guarda-Roupa

Estamos aproveitando a mudança para dar uma geral nos pertences e passar adiante o que não temos usado ou nunca usamos. Hoje fiquei tentando reduzir a quantidade de roupas que tenho, mas tá difícil.

Tenho a tendência a nunca jogar roupa fora, porque morro de preguiça de comprar novas (acho tudo feio e caro). A sorte é que as que eu tenho costumam servir por um longo tempo (tipo, até estragar). E que minha mãe costure, e volta e meia decida fazer uma calça ou vestido pra mim. No fim das contas, eu até que ando bem-vestida (pelo menos eu acho).

Então eu penso mil vezes antes de passar uma roupa adiante. Mesmo que ela esteja fora de moda, porque acredito piamente que uma hora a tendência volta. Às vezes eu levo peças para a casa da minha mãe para ver se alguma das minhas irmãs ou tia quer, e um ano depois eu acho as que ninguém quis, fico toda feliz e pego de volta. O Maridinho morre de rir. Ele até tentou instituir uma política de que as roupas que saem daqui de casa não podem mais voltar, mas não conseguiu implementá-la, porque ele não as reconhece!

Fiquei muito tentada a usar aquela regra que manda dar fim em tudo que você não usou nos últimos seis meses (incluindo vários sapatos de salto alto, que eu abandonei mesmo). Mas puxa. Estou mudando de cidade - e se em Brasília o povo andar todo nos trinques e eu me sentir obrigada a entrar no esquema? Vou ter de comprar tudo de novo? Aí não, né? Nessa horas o poupancismo (é: agora, ao invés de pão-dura, me intitulo de poupançuda) fala mais alto.


Além disso, vamos ter de contratar uma empresa de mudança mesmo, e vai custar uma fortuna mesmo. Uma caixa a mais de roupa não faz diferença.

O problema, claro, vai ser elas não caberem no guarda-roupa do futuro e diminuto apê.

O Caso dos Cortes

Ah, como o dia tem horas, depois que eu dispensei um monte de coisas que eu passei a achar pouco necessárias. E como estou achando minha pele ótima, talvez porque eu tenha deixado de passar um monte de produtos nela, talvez porque agora eu não fique examinando cada poro. Ou talvez porque o nível de estresse em minha vida tenha caído.

Minha coleção de cosméticos está passando por outro corte. Descobri que eu não tenho apenas um, ou quem sabe dois, mas TRÊS auto-bronzeadores. Aqui faz muito sol e calor; os braços ficam bronzeados, as pernas, branquinhas. Só que: 1) auto-bronzeadores têm um cheiro bizarro e persistente 2) auto-bronzeadores deixam minha pele meio alaranjada; 3) auto-bronzeadores têm de ser aplicados duas ou três vezes por semana, porque o efeito passa rapidamente. Em outras palavras: é chato, melequento e não funciona. E eu tentei, ó. E também é uma bobagem, né? Sério, ninguém liga para a cor das minhas pernas.

domingo, 20 de junho de 2010

O Caso do Envelhecimento Feminino

Descobri este artigo da antropóloga Mirian Goldenberg que organiza várias idéias que estavam na minha cabeça. Olha, era isso que eu queria dizer!

"NO BRASIL, o corpo é um capital. Certo padrão estético é visto como uma riqueza, desejada por pessoas de diferentes camadas sociais.

Muitos percebem a aparência como veículo de ascensão social e como capital no mercado de trabalho, de casamento e de sexo. Para aprofundar essa discussão, estou fazendo um estudo comparativo com mulheres brasileiras e alemãs na faixa de 50 a 60 anos.

Já nas primeiras entrevistas, constatei um abismo entre o poder objetivo que as brasileiras conquistaram e a miséria subjetiva que aparece em seus discursos.
Elas conquistaram realização profissional, independência econômica, maior escolaridade e liberdade sexual. Mas se preocupam com excesso de peso, têm vergonha do corpo, medo da solidão.

As alemãs se revelam muito mais seguras tanto objetiva quanto subjetivamente. Mais confortáveis com o envelhecimento, enfatizam a riqueza dessa fase em termos de realizações profissionais, intelectuais e afetivas.

A discrepância entre a realidade e a miséria discursiva das brasileiras mostra que aqui a velhice é um problema muito maior, o que explica o sacrifício que muitas fazem para parecer mais jovens. A decadência do corpo, a falta de homem e a invisibilidade marcam o discurso das brasileiras. De diferentes maneiras, elas dizem: "Aqueles olhares e cantadas tão comuns sumiram. Ninguém mais me chama de gostosa. Sou uma mulher invisível".

Curiosamente, as brasileiras que se mostram mais satisfeitas não são as mais magras ou bonitas. São aquelas que estão casadas há anos. Elas têm "capital marital".
Em um mercado em que os homens disponíveis são escassos, principalmente na faixa etária pesquisada, as casadas se sentem poderosas por terem um "produto" raro e valorizado. Aqui, ter marido também é um capital.

No Brasil, onde corpo e marido são considerados capitais, o envelhecimento é experimentado como uma fase de perdas ainda maiores. Já na cultura alemã, em que diferentes capitais têm mais valor, a velhice pode ser uma fase de realizações e de extrema liberdade.

Como ressaltou Simone de Beauvoir, "a última idade" pode ser uma liberação para as mulheres, que, "submetidas durante toda a vida ao marido e dedicadas aos filhos, podem, enfim preocupar-se consigo mesmas"."

sábado, 12 de junho de 2010

O Caso Dessa Vida

Eu não acredito em destino, nem em carma, nem em mapa astral. Entendo que seja muito reconfortante crer nessas coisas, porque aí a responsabilidade pela nossa vida deixa de ser totalmente nossa. E ela nem é totalmente nossa mesmo: há um monte de fatores sobre os quais a gente não tem controle. Eu, por exemplo, dei a sorte danada de nascer em uma família de classe média, em um país onde não há guerra civil, em uma área em que não há desastres naturais, e bem espertinha (pelo menos eu acho), pra completar.

Mas que a vida dá reviravoltas inesperadas (e toma rumos inimagináveis), isso dá. E que às vezes tudo faz sentido (e se encaixa como mágica), isso faz.

Se a gente pensar bem, isso depende muito de como encaramos a realidade. Se você tem um monte de interesses e vê cada mudança como uma oportunidade, fica mais fácil se adaptar e achar tudo bom. Estou pensando em mim: nunca cogitei em sair de BH. Fui para o interior imaginando em voltar o mais rápido possível. Gostei tanto que fiquei 6 anos. (Bônus: começar um casamento longe de ambas as famílias é fantástico, vão por mim.)

Aí Maridinho decidiu fazer concursos. E pode ser chamado para Brasília. Então vambora, oras. Vou perder a tranqüilidade e o baixo custo de vida do interior, mas vou poder assistir a aulas na UnB. E não é que eles estiveram em greve e o segundo semestre vai começar só em setembro, assim que eu chegar lá?

Em sorte eu acredito.