sexta-feira, 13 de maio de 2016

Vigilância constante

Já trabalhei em vários lugares diferentes. Em nenhum deles enfrentei o que acontece hoje, um fenômeno que batizei de "vigilância constante". Não passa um dia sem que uma das mulheres da sala faça um comentário, em alto e bom som, sobre a aparência de uma das outras: 

"Você está com cara de cansada!"
"Emagreceu?"
"Essa saia é nova, hein!"
"Passou delineador hoje?" 
"Cortou o cabelo!"
"Por que você não faz umas luzes?" 

E, claro, sobre o que se come ou o que se deixa de comer: 

"Você vai repetir?"
"Nossa, seu prato é tão pequeno!" 
"Este cookie diet é ótimo!"
"Eu evito laticínios."
"Vou fazer um detox antes da festa."
"Hoje eu vou fechar a boca."

Talvez, para algumas pessoas, funcione como uma demonstração de cuidado e carinho. Para mim, estabelece um clima de policiamento. O que é sinto é que todas se vigiam para não saírem de um padrão determinado de beleza, juventude e magreza. Me dá uma preguiça imensa. Minha sorte me acostumei a usar o que quero (tipo roupa adequada e confortável) e dispensar o que não quero (tipo salto e esmalte) em um ambiente menos opressor. Então, mesmo quando a patrulha está especialmente atuante (tipo hoje), não me abalo. 

Só me irrito. 

* * * 

A minha política é não fazer comentários sobre a aparência e o regime alimentar de ninguém. Já basta a mídia (e as colegas!) fazendo isso. 

Acho que as pessoas devem usar o que quiserem. Esse não é o ponto. O ponto é existir um ideal estrito de beleza e comportamento, nem especialmente saudável nem especialmente vantajoso, que muitas pessoas - ok, muitas mulheres - internalizam e, não satisfeitas de seguirem, insistem que as outras sigam também. #milarga, pô.

12 comentários:

  1. Oi Lud,

    Faz muitos anos que não trabalho com mulheres. São 7 homens e eu na sala. Como eu não me importo com o que eles acham das minhas roupas/cabelo/peso (e eles não fazem comentários sobre isso), etc, não vivo essa realidade.

    Mas tem o outro lado, né, que quando eles fazem comentários sobre a aparência/peso de outras mulheres, e daí eu tenho que me meter, e daí o troço acaba rendendo.

    Mas o pior de tudo, na minha opinião, é aquele papo de tem que ser magro (muito magro) porque é mais "saudável". Me dá um cansaço.

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    1. Dani, eu já trabalhei com mulheres e sempre foi tranquilo. Aqui é que tem uma concentração de fiscais do corpo alheio, rs, sei lá por que razão.

      Ah, sim, tem os comentários masculinos sobre as mulheres. O interessante é que geralmente o povo tem um "nível de exigência" que não empregam para si próprios, né?

      Me contaram que agora não é só ser magra, tem de ser malhada também. Tudo bem nome da saúde, claro. Afe.

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  2. Engraçado...pensei sobre o tema hoje. Ouvi na tv a palavra empoderamento,que agora é a nova exigência social das mulheres sobre as mulheres, e concluí que sempre fui empoderada pq nunca me submeti às exigências sociais.
    Não uso aliança pq nunca usei anel, nao uso maquiagem pq acho desnecessário (mesmo em casamentos e afins), aboli o salto do meu dia a dia pq eu mereço é conforto, nao aliso o cabelo (e sempre tem alguém pra me falar da progrssiva. Alou!), nao faço as unhas (e, inclusive, adoro roê-las). Sempre fui poderosa! ;-)
    Quanto ao comentário sobre a aparência da pessoa, eu não resisto a elogiar alguém. Então, elogio, mas sempre de forma muito sincera.
    Tb acho bossal essa constante comparação que mulheres fazem e a preocupação com aparência e tudo mais. Viver alheia a isso é tão leve!
    Bjo!

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    1. É leve e é ótimo, Vanessa!

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    2. Quanto ao elogio à aparência, eu acho um troço meio complicado. A pessoa fica feliz, mas não deixa de ser um julgamento, ainda que positivo. Eu elogio mil outras coisas, mas isso não =D.

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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  4. Até que na minha sala é bem tranquilo, às vezes o chefe faz uns comentários sobre aparência(só das mulheres, claro), e eu sou sempre a chata.

    Mas esses dias encontrei uma pessoa que me vira no início do ano, quando comentara que eu estava gordinha, pois essa semana a mesma pessoa, fala "está ótima, melhor não emagrecer mais". Sério? Que fiscalização é essa?

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  5. Ser "a chata" é um estilo de vida, rs. Mas é aquela coisa: a gente planta uma sementinha na cabeça das pessoas - quem sabe lá na frente ela não brota?

    É isso mesmo, fiscalização permanente. O eterno julgamento da aparência feminina, feito por deus e o povo. Baita desaforo.

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  6. Dias desses eu estava reclamado disso no Twitter. Trabalho só com o meu chefe e aposto que ele não sabe nem dizer a cor da camisa que ele usou no dia anterior quanto mais a cor da minha. Eventualmente, a contadora vem na empresa para resolver alguma coisa, e juro, ela ficou menos de 2 minutos na sala mas foi o suficiente para fazer um comentário sobre a minha aparência. Foi um elogio? Foi, mas precisava? Claro que não. O hábito de fiscalizar a aparência falou mais alto.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. E qual seria o problema do all star? Tudo deveria ser uma questão de escolha e bom senso, não? Acho que se a gente buscasse pela essência das coisas, e pela não vigilância, como bem apontado pela Lud, nem nos passaria pela cabeça a (não) relevância de alguém do jurídico usar all star.

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    2. Camila, não entendi. Não estou reclamando do fato de que alguns ambientes de trabalho demandam trajes específicos: eu mesma me visto de maneira bastante formal - calça e camisa social, blazer, sapato fechado. O que o funciona para pessoal do jurídico também (e funcionará quando eu for ofchan, rs). A "vigilância constante" é aquele exame relativo a detalhes na aparência a que nenhum homem é submetido. A unha está feita? O cabelo está escovado? O peso variou? etc. etc.

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