quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Tudo ao mesmo tempo agora

Como sempre, vem tudo junto: horas-extras todo dia no trabalho, crise de labirintite, duas horas e meia de espanhol diárias de segunda a sexta. Previsão do tempo: as condições climáticas se manterão pelo menos pelas próximas três semanas. Por um lado, não posso dizer que minha vida não tem emoções; por outro, estou ficando bem cansada. Minha esperança é me acostumar com o ritmo e daqui a uns dias estar reclamando do excesso de tempo livre.

* * *

On a brighter note, tomei o Kindle de teclas do Leo para dar para meu pai, mas consegui comprar outro igual no Mercado Livre. Custou 80 reais e está novíssimo. Detalhe: o Leo não se importou muito, porque tem outro Kindle touch screen com luz, mas eu fiquei aflita, porque quando meu original de teclas morresse, eu ia ficar sem um backup à altura. Agora está tudo bem no reino da Lud&Leolândia.

Meu pai também está contente: ele já tinha tinha um Kindle, mas era um touch screen complicadinho de usar. O que dei pra ele tem uns poucos botões e dicionário, o que ele adorou (o anterior também tinha, mas o comando não era tão óbvio).

E aí, para manter o número de Kindles na família estável, minha irmã mais nova perdeu o dela no avião.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Retrospectiva 2018

Trabalhei muito. Achei o trabalho chato. Mesmo assim, como sou caxias, trabalhei bem e fui reconhecida. Encontrei amigos. Li de montão. Comecei a estudar russo e voltei a estudar espanhol. Fiz minha primeira missão no exterior. Senti a ansiedade voltar. Fiz jejum intermitente, experimentei baixos carboidratos. Mudei de setor. Viajei para Espanha e França nas férias. Viajei para a Alemanha a trabalho. Andei de bicicleta (duas vezes). Fiz 25 anos de relacionamento. Fui ao aniversário de 100 anos de minha avó. Emagreci. Engordei. Perdi tempo nas redes sociais.  Emburrei. Desemburrei.

Financeiramente, a receita de salários diminuiu e a grana nas aplicações rendeu menos, mas como eu e marido somos minimalistas-econômicos-frugais e vivemos abaixo dos nossos meios, a vida não mudou - e ainda conseguimos guardar 40% das entradas (após impostos).

2018 foi um ano misturado: vários momentos bons, umas notícias ruins e alguns desapontamentos. Foi um daqueles anos-recheio, espremido entre outros muito mais interessantes: em 2017 comecei no emprego atual, em 2019 (se tudo der certo) serei removida pra fora do país. Morro de preguiça desses anos intermediários, em que nada de realmente emocionante acontece.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Gostar eu gosto mesmo

Gostar eu gosto mesmo é de ler livros e comer chocolate e mastigar umas pipocas o dia inteiro. Gostar eu gosto mesmo é de ficar em casa, almoçar sozinha e recusar convites. Gostar eu gosto mesmo é de não ter horários, obrigações ou agenda. Gostar eu gosto mesmo é de dar uma dormidinha em vez de me exercitar.

Mas quando eu faço só o que eu gosto, gosto mesmo, acabo emburrada e entediada e levemente deprimida. Infelizmente eu preciso de outras fontes nutricionais, de outros tipos de diversão, de contato com as pessoas, de objetivos e metas. Acho isso detestável, porque eu me esforço justamente para chegar ao lugar onde eu posso fazer o que eu gosto, gosto mesmo, mas quando chego lá, me aborreço profundamente.

O jeito é fazer um monte de coisas que não tenho vontade - pelo menos no começo. Depois que começo a socializar, caminhar, fazer listinhas de onde quero chegar, aí pego embalo e fico toda animada.

Segundo uns livros que já li (desculpem, não me lembro mais quais), um bom truque para fazer atividades que fazem bem, em vez de aquelas que a gente gosta, gosta mesmo, é preparar o ambiente adequadamente. Eu, que me perco no buraco negro internet + redes sociais, tirei o notebook de cima da mesa e guardei dentro de um gaveta no quarto - assim, não é automático grudar nele toda vez que chego em casa. Meus queridos chocolates? Foram para as profundezas do armário. Dormidinhas? Agora a regra é não ler na cama, só sentada, a não ser que já seja hora de dormir. E os tênis ficam bem à vista, para me lembrar que, chegando do trabalho, é hora de ir caminhar.

Acho que o que mais tem feito diferença é mesmo o laptop. É muito fácil se distrair com a imensa riqueza da internet. Sem ele, eu me divirto estudando um idioma, escutando música ou lendo um livro com atenção (sim, às vezes eu leio e navego ao mesmo tempo. Não presta).

Para fechar, é exatamente aquilo que um dos livros que já li diz: o ser humano não sabe o que o faz feliz. Ele acha que é ler livros e comer chocolate e mastigar umas pipocas o dia inteiro (ou tomar todas ou trabalhar demais), mas nem é. Rola uma satisfação, sim, mas ela é passageira.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Pode confiar

Já fui aquela pessoa que não jogava nada fora, nunca. Vivia pelo lema "Quem guarda tem". Depois que me tornei minimalista, lá em 2011, o jogo virou: tenho poucas coisas e me esforço para continuar assim. Quando ganho um presente ou, mais raramente, compro alguma coisa, tento logo doar ou me desfazer do similar.

Confesso que, quando comecei, me preocupei com a possibilidade de me livrar de um objeto de que, eventualmente, poderia precisar ou querer. Mas isso não aconteceu. Muito de vez em quando, me lembro de algo que eu bem que podia usar. Pois bem: vou investigar no armário e, na maioria das vezes, lá está ele.

Isso não quer dizer que eu não jogue nada fora, nunca: quer dizer que a minha experiência é que a gente sabe avaliar bem o que vale a pena guardar. O último exemplo foram calças pretas sociais que herdei. Na época, elas ficaram um pouco largas. Mas, depois do período na Alemanha, fiquei pensando que ela viriam bem a calhar. Fui procurá-las, crente que tinha me desfeito delas, e voilà: estavam bonitinhas no cabide.

O segredo, obviamente, é só manter as coisas que fazem sentido. Sempre preciso de calças pretas para trabalhar. Vestido colorido ou blusa estampada? Nem tanto.

Então é isso: quer se livrar dos excessos? Vá em frente. Você sabe do que precisa. Pode confiar.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Y ahora? Español

Lembram que em junho fiz prova de nivelamento de francês? Pois então, naquela época aproveitei e fiz de espanhol também.

Estudei espanhol durante uns meses em 2003, em um curso daqueles que se ganhava por telefone. (Ligavam para sua casa, diziam que você tinha sido sorteado e que só tinha que pagar o material. Achei que era golpe, mas estou tentando descobrir a pegadinha até hoje: de fato só paguei o material, e de fato teve aula.)

Depois não fiz outros cursos, por pura teimosia: quando morei em Coronel Fabriciano, no interior de Minas, havia uma escola de idiomas a um quarteirão da minha casa. Eles ameaçavam abrir turmas de francês a cada semestre e nunca abriam, mas espanhol sempre tinha. Só que eu não queria espanhol, queria francês. No fim das contas não estudei nenhuma das duas. Que boba.

Mas a gente sempre tem um pouco de contato com a língua espanhola, né? Desde então, li livros, escutei música (Shakira, Shakira), passeei em países hispânicos e, no teste de nivelamento, blefei o suficiente para me colocarem no nível intermediário 1.

Fazer o teste veio bem a calhar: vai ter curso intensivo no começo do ano (aulas todos os dias, do meio de janeiro até o início de fevereiro), e só vai poder se inscrever quem já fez o nivelamento.

Meu nível de espanhol não é beeeem o intermediário, pero no hay problema: tenho até o meio de janeiro para estudar, oras.

Depois do russo, vai ser um alívio.

sábado, 8 de dezembro de 2018

A loucura dos livros

Desde criança eu sou a doida da leitura. Passava todos os dias na biblioteca do colégio para pegar um livro, e no dia seguinte já estava trocando. Aproveitava e lia também os que minha irmã mais velha pegava. O resultado é que liquidei todo o acervo da biblioteca. Isso não foi muito bom para minha vida social, mas ótimo para minhas notas.

Quando entrei na faculdade de direito, confesso que não achava a biblioteca jurídica lá muito atraente. Logo descobri uma livraria próxima à faculdade que vendia livros e revistas estrangeiras a preços módicos (áureos tempos da paridade com o dólar). Pronto, passei a ler em inglês também.

Não preciso dizer que, com o surgimentos dos leitores eletrônicos, a loucura dos livros foi ao ápice. Há uma quantidade incrível de livros pela internet. Um dos meus hábitos é consultar minhas fontes diariamente para ver se surgiu alguma novidade interessante. Ou vagamente interessante.

Com toda essa riqueza, fiquei muito exigente. Comecei a ler, não gostei? Apago do Kindle na hora (mas mantenho uma cópia no computador, né, porque vai que depois preciso).

Com toda essa riqueza, fiquei meio distraída. Leio vários livros ao mesmo tempo, esqueço o nome dos autores, confundo títulos. Às vezes um único capítulo me deixa satisfeita. Às vezes paro no meio e nunca mais volto.

Esse método (que método?) talvez não seja o melhor para a aquisição de conhecimento. Mas me divirto horrores.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Acabou! O curso de russo. Por enquanto.

Foram só dez aulas - duas por semana, durante um mês e pouco -, e eu ainda perdi as três primeiras. Então não posso reclamar (muito) do fato de eu não estar lendo as grandes obras da literatura russa no original. Mas confesso que estou um pouco frustrada, sim.

Minha maior dificuldade foi (é!) o alfabeto cirílico. Aprendi todas as letras, mas ainda me sinto analfabeta. Diante de uma frase, tenho de ir decifrando caractere por caractere, o que é trabalhoso e demorado. Quando escuto um palavra nova e quero anotar, então, é outro sofrimento. Enquanto brigo com cada hieróglifo russo, a professora já despejou mais conteúdo.

Como eu disse, senti muita vontade de matar umas aulas e/ou largar o curso pelo meio. Finalmente compreendi aqueles colegas de turma que não conseguiam acompanhar uma matéria e perdiam totalmente o interesse - não faziam mais dever, não chegavam na hora, não estudavam para a prova. De fato, quando perdemos (ou nunca encontramos!) o fio da meada, aprender se torna complicado e sacrificante.

Mas resisti: fui direitinho a todas as aulas, busquei material alternativo, estudei em casa. De falta de boa-vontade não podem me acusar.

O curso terminou hoje com uma prova oral em que maltratei o russo com a desumanidade de um espião da Guerra Fria. A professora ajudou e acho que ela vai aprovar todo mundo, mas não saí feliz, não. 

Estou me consolando com o fato de que, hoje, sei mais do que sabia antes do curso (antes do curso eu sabia basicamente zero, ноль). O plano é continuar estudando por conta própria e, se no próximo semestre russo for uma das línguas oferecidas, estou dentro.

Mas não serei a coleguinha exibida, prometo.

* * *

Antes de sair para Munique, consegui fazer uma aula de alemão e achei bem difícil. Foi só começar a estudar russo para perceber que, na verdade, alemão é moleza. Alfabeto latino! Parentesco com o inglês! Só quatro casos de declinação!

Ou seja, preciso urgentemente de uma aula de mandarim. Perto dos ideogramas chineses, o alfabeto cirílico vai ficar facinho, facinho.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Coincidências

Voltei de Munique trazendo um documento, perdido no aeroporto, de uma pessoa que mora em Brasília. Ontem o moço me ligou para combinarmos a entrega e me perguntou, para minha grande surpresa, se não havíamos sido colegas de faculdade.

Não reconheci nem a foto nem o nome no documento, mas, quando joguei os dados na internet e espremi os neurônios, resgatei umas lembranças do fundo do baú. Não é que estudamos juntos mesmo?

Aí fui calcular há quanto tempo isso aconteceu. Pois bem, nossa turma se formou há 20 anos. Duas décadas! E tem outra: depois da formatura mudei de área, de cidade(s) e de emprego. Perdi totalmente o contato com a turma da faculdade. Não é à toa que não liguei o nome à pessoa (ou me lembrei, do nome ou da pessoa).

Mas achei uma coincidência legal. É muito interessante encontrar pessoas do passado. Fico curiosa para saber como a vida delas seguiu. Deu tudo certo? Estão onde gostariam de estar? Curtem trabalhar na área? Houve surpresas na jornada?

Tem um elemento de caminho não tomado, sim. Se eu tivesse seguindo aquele roteiro, como eu estaria hoje? Mais ou menos feliz? Mais avançada na carreira, isso com certeza (pelo menos não mais em estágio probatório!).

Cá pra nós? Desconfio que meu nível de satisfação seria parecido. Há pesquisas mostrando que as pessoas têm um ponto mais ou menos fixo de felicidade e tendem a retornar para ele, mesmo quando coisas muito boas (ganhar na loteria) ou muito ruins (sofrer um acidente) acontecem. A gente vira pra lá e pra cá e tenta tomar as melhores decisões, mas na maioria das vezes não escolhemos entre uma opção desastrosa e uma sensacional, mas entre possibilidades razoáveis, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

Amanhã reencontro o ex-colega para devolver o documento. Vamos ver o que ele diz do rumo que tomou.

* * *

O ex-colega não estava exuberantemente feliz, mas me pareceu tranquilo e alegre. Tem um ótimo emprego, uma esposa, duas filhas. Contou que passou da fase "vou fazer do Brasil um lugar melhor" para a fase "faço meu trabalho com dedicação, mas sem ilusões".

Fiquei contente de saber que ele está bem.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A segunda parte do show

Quando completei 40 anos, não tive crise de meia-idade, mas passei a ter consciência da minha própria mortalidade. Partindo do pressuposto de que viverei razoavelmente bem até os 80 (e aí partir estarei pronta para embarcar no programa de eutanásia mais próximo se a saúde falhar), agora estou na segunda e última parte da minha vida - sem esquecer que nessa fase o tempo parece passar cada vez mais rápido.

Tenho lido livros e artigos sobre maturidade e velhice. Ainda me sinto bem jovem, até porque meus colegas de concurso são bem novinhos e tenho convivido muito com eles, mas gosto de saber o que vem pela frente. Muita informação não é novidade: é importante se manter ativa, evitar excessos, cultivar amizades, dormir bem. Outros dados são inesperados: pesquisas mostram que a felicidade da maioria das pessoas cai entre 20 e 40 anos, e começa a subir de novo aos 50. Tem a ver com o estresse de se estabelecer economicamente, construir um patrimônio e cuidar dos filhos, que só se tornam independentes após a adolescência.

Como não tenho filhos, não estou nem um pouco estressada (e talvez minha felicidade após os 50 não aumente tanto, já que também não terei netos). Mas acredito que, se não tivesse mudado de emprego, estaria reavaliando minhas escolhas. É isso que quero? Meu trabalho tem significado? Fico feliz com a ideia de seguir essa carreira por mais 20 anos? (Quando comecei a trabalhar, a perspectiva era me aposentar aos 55, mas acho que não vai rolar. Estou contando com uns 65.)

Acho que a vantagem de ficar mais velha é ficar mais pé no chão. Não dá mais tempo de virar astronauta ou estrela de Hollywood. Os limites ficam mais claros.

As possibilidades também.

domingo, 25 de novembro de 2018

Pra cá e pra lá (com muita ou pouca bagagem)

Uma das maneiras mais fáceis e recompensadoras de embarcar no minimalismo é imediatamente antes de uma mudança. Se for para um lugar menor, melhor ainda. Fazer uma seleção do que realmente importa não só facilita o transporte dos objetos como a mudança de cenário faz com que você nem sinta a falta deles. Casa nova, vida nova!

Logo, imaginei que pessoas para as quais a mudança de endereço é um estilo de vida (isto é, meus colegas de trabalho) seriam craques nisso. Se de tantos em tantos anos você tem de empacotar tudo e partir para um destino totalmente diferente, não é prático carregar pouca coisa? Tanto para não se preocupar com atrasos na mudança e com danos nos móveis como para ter espaço, na casa e na alma, para novos hábitos e estilos de vida. Móveis de varanda não serão muito usados na Sibéria. Equipamento de esqui vai ficar encostado na Índia. Eletro-eletrônicos provavelmente vão exigir tomadas e voltagens diferentes. E por aí vai.

Perguntei a uma colega que cuidava de transporte de bagagem se os contêineres da galera iam ficando menores à medida em que a carreira progredia. Para minha surpresa, ela disse que não. Ao contrário: quanto mais anos de trabalho, mais coisa a pessoa juntava.

Fiquei sem entender até que, um dia, tive um insight: se a pessoa está cada par de anos em um país, ter em torno de si objetos familiares pode dar um sentido de continuidade e segurança. Principalmente para cônjuge e filhos, porque o servidor do serviço exterior tem pelo menos sua carreira para se agarrar psicologicamente. O acompanhante tem de se virar para (re)encontrar sua identidade a cada novo posto.

Dito isso, acho que existe uma grande distância entre possuir apenas 50 objetos e acumular pilhas de bens. Imagino que seja muito fácil adquirir obras de arte, artesanato, louça, roupa e equipamentos toda vez que a pessoa se instala em um território diferente. Tanta novidade! Tudo tão bonito e colorido! Mas imaginem o trabalho e a dor de cabeça a cada realocação.

É verdade que, de 2013 a 2015, ficamos sem casa por 26 meses, então eu não podia juntar coisas, ponto. Minha próxima mudança vai ser diferente: iremos para um lugar fixo onde ficaremos por pelo menos dois anos. Ou seja, vai ser possível (e até fácil!) me deixar seduzir pelo consumo e pela acumulação.

Mas acho que não vai acontecer, viu? Voltamos para Brasília e mantivemos nosso estilo de vida simples e desapegado. Pensamos seriamente em, quando formos removidos, alugarmos um apartamento mobiliado e levarmos pouquíssima coisa do Brasil.

Só paçoquinhas e cachaça.