quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Os primeiros dias

Estou em clima de férias, mas adianto que está sendo ótimo passar este período de transição na Suíça em vez de em Abu Dhabi e Dubai, que era o plano original. Estamos quase acertados com o novo fuso horário e nos acostumando com o frio e o jeito suíço de ser. Os locais são muito gentis. E muita gente fala inglês. 

É verdade que estávamos em Interlaken, que é interior. Geralmente o povo mais mala habita as capitais (vide parisienses e portenhos). E ninguém nunca acusou os suíços de serem mal-educados, mas sim de reservados demais. Ninguém vai nos maltratar, mas em tese é difícil fazer amigos. Veremos

Depois de quase duas semanas, vou ter de dar o braço a torcer: o Leo tinha razão. As Filipinas, apesar da imensa distância geográfica (antípoda de Brasília!), são muito mais parecidas com o Brasil. Aqui a diferença começa com a língua alemã (não estou nem falando do alemão suíço!), continua com o clima e termina... não sei onde. 

Em Manila era tudo escrito em inglês, o que facilitava muito a nossa vida, embora não fosse todo mundo que o dominasse. Aqui, até o momento, encontramos muitos falantes de inglês (britânico, devido à proximidade com a Inglaterra), mas nos sentimos analfabetos diante das placas, avisos e letreiros. 

Vamos aprender, claro, mas vai demorar um tempinho.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Fotos das férias, parte I

Estamos curtindo demais. O frio, o céu, o ar puro, o silêncio. Dormir debaixo do edredom. Esquentar as mãos na caneca de chá. Fazer fondue (em Manila a gente fazia também, mas o clima não era lá o mais adequado). Caminhar para tudo quanto é lado. Ver o nascer do sol (às 8 da manhã).

E, claro, passear! Nos eficientes, confortáveis, silenciosos e pontuais trens suíços. 

Iseltwald

Thun

Spiez

Interlaken com sol

Brienz

Blausee

Kandersteg

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Em um relacionamento sério: eu e o frio

Não sou a pessoa mais óbvia para morar em um país frio. Sou das que vai agasalhada ao cinema e deixa um casaquinho no trabalho por causa do ar-condicionado. No entanto, surgiu a oportunidade de trabalhar na Suíça e eu aceitei. Sim, frio, estou certa de que conseguirei vencer os empecilhos que ameaçam nosso amor. 

Estratégia número 1: não existe clima ruim, existe roupa não-apropriada (como dizem os finlandeses). Eu trouxe todas as minhas roupas quentes e estou disposta a comprar quantas mais forem necessárias (contanto que sejam bem bonitas e não muito caras).

Estratégia número 2: sai, casaco. Dá preguiça, mas ao entrar em qualquer ambiente aquecido (loja, restaurante, trem, metrô), o casaco tem de ser tirado, ou o corpo se acostuma com a nova temperatura e a gente congela quando sai de novo. Essa foi a irmã Isa que me ensinou (ela morou na Alemanha). 

Estratégia número 3: pezinhos aquecidos. Minha primeira compra em Interlaken foi um par de pantufas da vovó. O apartamento que alugamos é quentinho, mas o chão, como sói acontecer, é gelado. E não há meia ou chinelinho que dê conta. O jeito é arrumar pantufas macias de sola grossinha e isolante. 

Estratégia número 4: pontos estratégicos. Além dos pés, gorro, cachecol e luvas grossas fazem muita diferença para impedir que o calor do corpo escape. É bom que estejam sempre na mochila. 

Estratégia número 5: aceitação. Em alguns momentos vou sentir um pouco de frio, e isso é um fato da vida. Tenho que me vestir de maneira a ficar minimamente confortável, e não quente como um forninho. 

Por enquanto essas estratégias estão funcionando. Mas você também tem de fazer a sua parte, frio. Estou pensando que, quando o inverno acabar, a gente devia dar um tempo na nossa relação. 

No fim do ano reatamos, prometo.

Por enquanto está dando certo. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Hallo, Schweiz!

Interlaken, 15 de janeiro de 2022. 

Depois de dois voos bem longos (9 horas e 7 horas, respectivamente) e 3 horas de trem, chegamos ontem ao nosso destino: Interlaken, uma cidadezinha suíça de mais ou menos 6 mil habitantes situada em uma região linda, com muitos passeios a fazer. 

Pousamos empolgados: inclusive combinamos e descemos o último degrau da escada de desembarque ao mesmo tempo para pisarmos no solo helvético juntos. Depois foi uma correria para tentar pegar o trem que saía dali a pouco. Deu tudo certo e entramos no vagão com dois minutos para o trem partir. 

O tempo estava ótimo: céu azul e sol. Temperaturas bem baixas (em torno de zero), que é o que a gente esperava mesmo. Arrastamos as malas da estação de trem para o apartamento e demos uma voltinha básica (passando no supermercado Coop, com direito a todos os derivados do leite que encontramos - nas Filipinas iogurtes, queijos e afins são poucos e caros) antes de voltar pra casa, tomar banho e apagar. 

Hoje acordamos cedinho, antes do sol nascer (mas também, o sol está nascendo depois das 7) e passeamos um bocado. O tempo esteve nublado e com névoa, o que dá um charme. 

Estou encarando os dias que vamos passar em Interlaken como férias. Ainda não estou pronta para lidar com o fato de que vamos morar neste país por uns bons anos. É muita alegria de uma vez só. 

Vendo a Suíça do alto. 


Vendo a Suíça do trem.

Interlaken cedinho. 

Olha a alegria nos olhinhos da pessoa. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O último dia

O resultado do PCR saiu às 8 da manhã: negativo! Dançamos alegremente pela a sala, nos lançamos às tarefas do dia e...

... só agora, as 4 da tarde, é que conseguimos dar uma parada. Entre diversas providências burocráticas, um último acerto no trabalho e a vistoria para a devolução do apartamento, foi uma correria. E eu, a boba, achando que estava tudo adiantado e que hoje seria tranquilo. Imagina se não estivesse adiantado!

A parte boa é que com tanta agitação a gente se distrai. 

* * * 

Demos uma parada nada. Ainda corri no trabalho para deixar as identidades locais e uma lembrança para um amigo. No momento, estou juntando forças para tomar banho e fechar definitivamente as malas. Daqui a 2 horas saímos para o aeroporto. 

Acho que só lá vai dar tempo de respirar e sentir o peso da despedida. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Contagem regressiva

Hoje, terça-feira, a equipe da mudança veio embalar as nossas coisinhas. Eram 5 pessoas e uma manhã foi suficiente. Eles estavam de máscara, nós estávamos de máscara, e esperamos que ninguém tenha contaminado ninguém. 

Olhaí outra vantagem do apartamento mobiliado: a mudança foi retirada, mas ainda temos cama, mesa e sofá. Vamos ficar bem acomodados até partirmos, na noite da quinta-feira 13, ou seja, não vamos precisar ir para um hotel. 

Amanhã cedo: teste de Covid em casa. Eu gostaria de estar mais tranquila a respeito, mas ontem o terceiro colega de trabalho deu positivo. E, com ele, eu tinha muito mais contato. Sim, usávamos máscaras. Mas não dá para afirmar com 100% de certeza que elas estavam perfeitamente ajustadas o tempo todo. Só nos resta torcer. 

Também tem o fato de que todos os laboratórios de testes em Manila estão assoberbados. Fomos espertos e marcamos nosso horário no começo da semana passada. Mesmo assim, os resultados estão demorando a sair. De novo, fomos espertos e marcamos o teste para o começo do dia anterior ao voo, com resultados em 24 horas. Ou seja, pode atrasar 12 horas que ainda dá tempo de a gente embarcar. 

Não pode é dar positivo. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Choque de cultura

Não, não estou falando do programa com os maiores nomes do transporte alternativo, mas do fenômeno que atinge quem muda de país. Também é conhecido como choque cultural e o quadro abaixo, como fases da adaptação cultural (ou curva do expatriado). 


A teoria é que nos primeiros meses é só alegria e a felicidade chega lá no alto. Depois, a pessoa começa a ver os defeitos do novo lar: fica rabugenta e passa a reclamar de tudo, além de comparar com o país natal (ou anterior). Na terceira fase ela vai se adaptando. Na quarta, se ajusta à nova realidade, e o nível de satisfação sobe novamente. 

Pra mim foi um pouco diferente. A crise (de ansiedade) bateu assim que cheguei. Quando melhorei, começou a pandemia, avacalhando a curva e atrapalhando a adaptação. De qualquer forma, foi um período muito interessante. Tédio não passei: a cada dia uma aventura!

E tem o fato de a estada nas Filipinas ser temporária, o que é uma vantagem grande. Dois anos e meio uma hora passam, como de fato passaram. Isso ajuda a gente a focar no que é legal e não ligar muito para o que não é. 

Estou curiosa para ver como vai ser a minha experiência na Suíça. É um país mais bem-estruturado e mais próximo do Brasil, tanto geográfica quanto culturalmente. Por outro lado, as expectativas são bem altas.  

Não percam as cenas dos próximos capítulos. 

* * * 

O Leo comentou que acha as Filipinas mais parecidas culturalmente com o Brasil do que a Suíça: também foram colonizados por país latino, são majoritariamente cristãos, são muito influenciados pelos Estados Unidos, sofrem com a corrupção e democracia é recente. Já eu estava pensando em termos de Oriente/Ocidente, relações com a China e senso de comunidade. 

Veremos que tem razão. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Adeus, apê rico

Estou me despedindo do apartamento mais rico que já morei ou morarei. 

Fomos os primeiros habitantes e ele veio mobiliado e decorado. Com lustres grandes, móveis pesados, projeto de iluminação, amplos tapetes, amortecimento em cada gaveta. A cama é king size. A mesa de jantar é para dez pessoas.  

Gostei de morar aqui? Sim. Vou sentir falta? Nenhuma. 

O apartamento é grande e chique e bonito. E não parece nada comigo. 

Tem a questão de os móveis não serem meus, claro. Mas não é só isso. Sobra espaço nele. O corredor é longo demais. Há bege até onde a vista alcança. E, por causa do papel de parede, nunca penduramos nada. 

A próxima casa vai ser menor, mais simples e vou querer torná-la mais minha.

Gosto de menor e mais simples. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O cerco se fecha

Primeiro foi a notícia de vários contaminados nos prédios dos colegas; antes de ontem, chegou aqui o aviso que um vizinho estava infectado no nosso prédio também. 

Hoje um colega de trabalho fez o teste e deu positivo. Outro, que estava de férias, avisou que o mesmo aconteceu com ele. 

Eu conversei com o primeiro no escritório, de longe e de máscara, três vezes esta semana. Tomara que o contato não tenha sido o suficiente para eu me contaminar. 

Como eu e o Leo tomamos duas doses de vacina + booster, estou tranquila em relação à saúde. O problema é o teste PCR que vamos fazer um dia antes de embarcar, porque a vacina impede os sintomas piores, mas não impede a infecção. Se ele der positivo, vamos ter de adiar o voo em pelo menos duas semanas, resolver onde morar nesse período, desmarcar reservas... 

Não estou me afligindo antecipadamente: estou pensando em um plano C (sim, já estamos no plano B, pois cancelamos as férias no Oriente Médio, que eram o plano A). 

O Leo disse para a gente nem esquentar a cabeça, porque pandemia é assim mesmo. Atrasos e cancelamentos fazem parte do pacote. Ficar com raiva não adianta. Se os lindos dias de férias em Interlaken, que estamos aguardando ansiosamente, floparem, paciência. 

A gente come uns chocolates nacionais para se consolar. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Felizinha

Exceto pela escalada da Ômicron, que impediu todo e qualquer evento de despedida, está tudo indo bem. Hoje fizemos a pré-vistoria do apartamento, amanhã termino mais um projeto no trabalho. 

Estou muito contente com o fato de que, embora estejamos próximos ao uma mudança, eu esteja tranquila. Em 2019, eu estava muito aflita, feliz mas apreensiva com a perspectiva da primeira remoção. Até fiz umas sessões de terapia, mas foram poucas, porque faltavam semanas para a minha partida. 

Aí cheguei às Filipinas e tive meu surto de ansiedade. Dei sorte de encontrar rapidinho um psiquiatra que falava bem inglês. Estou me sentindo ótima há vários meses, mas decidi continuar com o remedinho por um tempo na Suíça. Depois vou diminuindo a dose até parar de vez.  

Quando vim para Manila, estava achando que dava conta de gerenciar o nervosismo. Não sei se fui confiante demais ou se minha tolerância ao sofrimento é maior do que devia (em vez de buscar ajuda, sempre quero resolver sozinha). Só sei que, embora as circunstâncias agora sejam um pouco diferentes, não vou cometer o mesmo erro.

Até porque vamos chegar ao novo país em um momento meio delicado: pico do inverno, com restrições da pandemia. Estamos bem conscientes dessas condições; assim, não vamos nos frustrar. E teremos uma vantagem: uns dias de férias antes de começar a trabalhar. Vou poder me adaptar um pouco ao país antes de pegar no batente. Em 2019, voei mais de 20 horas, cheguei quase meia-noite às Filipinas e fui para o trabalho no dia seguinte, com o pior jet-lag da vida. 

O que temos feito, então, é planejar, com muita alegria, esses dias de férias. Vai ser ótimo!