quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Aparência e essência

No trabalho, uso calças e camisas sociais e sapatos baixos. Quando saio, é jeans ou vestido discreto. Não ando de acessórios nem tenho tatuagem. Aí, as pessoas se surpreendem quando digo que já vendi tudo para viajar, que sou a favor da legalização das drogas e do aborto, feminista e ateia.

Acho engraçado. Será que tem jeito de telegrafar minhas filosofias de vida? Se eu usasse colares compridos e saias indianas e bolsas artesanais, o povo ia desconfiar mais rápido que não sou conservadora?

Já ouvi gente dizendo: "Vão te julgar de qualquer jeito, então é melhor ter controle sobre como você se apresenta". Essa é a base, aliás, desses programas "antes &depois". Os apresentadores dizem que querem ajudar as pessoas a mostrarem ao mundo seus verdadeiros eus.

O que me deixa desconfiadíssima. Primeiro que o hábito não faz o monge: a pessoa pode usar camisa de banda porque está na moda, não porque curte a música. Segundo que, em geral, ninguém espera isso dos moços. Existem algumas tribos, mas geralmente o povo espera o menino abrir a boca antes de julgar.

Meu verdadeiro eu usa roupinhas básicas, mas tem umas ideias diferentes, oras.






quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O futuro

Acho que estou mais sossegada porque, pela primeira vez na vida, sei para onde estou indo profissionalmente. O plano é me aposentar no cargo onde estou, com 75 anos, tendo passado a última temporada no exterior em Paris sendo a Yoda do consulado (aquela pessoa experiente e sensata para quem todo mundo corre quando os problemas aparecem).

Claro que tudo pode mudar no caminho. Claro que pode não ter vaga em Paris. Claro que eu posso querer chutar o balde e sair antes da expulsória, digo, compulsória. Mas é muito tranquilizador saber que a carreira está mais ou menos definida, que não preciso mais fazer ainda um outro concurso, que agora é trabalhar muito e bem que as coisas seguirão seu rumo.

Continuo querendo ser a funcionária do mês. Continuo tendo ideias para melhorar os processos do setor. Continuo sendo a pessoa que acha que um ligeiro ataque de labirintite, devidamente medicado com Dramin, não é razão para não ir trabalhar.

Mas não sinto mais aquela angústia do tipo "será que estou no lugar certo?". Agora eu boto fé que estou.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Como NÃO fazer uma torta de Nutella e Negresco

1. Ache essa receita linda na internet;

2. Pergunte para os amigos cozinheiros o que é queijo creme e natas batidas;

3. Descubra que se trata de cream cheese e chantilly. Ah, a ironia de entender o que são os ingredientes nas suas línguas originais, mas não em português;

4. Investigue em mais de um supermercado se dá para comprar pronto cream cheese e chantilly;

5. Leve pra casa de uma vez a Nutella e biscoitos Negresco;

6. Hesite entre o chantilly e o creme de leite fresco (que também te falaram que funciona) e não compre nenhum;

7. Decida experimentar a Nutella com um Negresco para ver se funciona;

8. Faça diversas combinações: recheie um Negresco de Nutella, recubra um Negresco com Nutella, faça palha italiana com Negresco e Nutella;

9. Não consiga decidir que combinação fica melhor;

9. Coma todo o Negresco e toda a Nutella.

FIM

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Rejuvelhecendo

Diz a lenda que, com a idade, as pessoas vão ficando mais sistemáticas e exigentes. Já sabem do que gostam, têm opiniões bem estabelecidas e sabem como o mundo funciona.

Meu caso é meio diferente. À medida em que o tempo vai passando, vou mudando de ideia e ambicionando novas experiências. Quando eu era criança, só tomava sorvete de chocolate: hoje, me empolgo com uma comidinha diferente. Na juventude, achava que sabia tudo; agora, tento ficar aberta a outras opiniões. Já fui muito na minha - era difícil me levar para uma festa. Nos últimos tempos, ando é convidando os outros para eventos.

Acho que a idade me deixou menos ansiosa e medrosa. Eu era meio tensa e muito preocupada com a minha dignidade.

Hoje me importo mais com minha felicidade mesmo.

domingo, 24 de setembro de 2017

Gentilmente usados

Ontem o Leo comentou, e eu concordei, surpreendida, que todos os nossos móveis e eletrodomésticos grandes são de segunda mão. Única exceção: a cama. Confesso que fiquei orgulhosa. 

Temos uma casa lindinha, com móveis branquinhos que combinam, um sofá bacana, uma mesa preta bonitona, um rack com pés palito, uma cozinha preto-e-branco. Demos a maior sorte porque as paredes do apartamento já estavam pintadas em tons (só dois, não cinquenta!) de cinza. Deu certinho com as nossas coisas. 

Não foi tudo baratésimo, não. Mas acho que dá pra dizer que desembolsamos uma média de 60% do que pagaríamos se tívessemos comprado tudo novo. E não acho que, nesse caso, a casa estaria mais bem equipada ou decorada!

Com a mudança, vi que a opção por móveis versáteis realmente funciona. O carrinho de aço, que servia para colocar toalhas no banheiro, migrou para sala e virou apoio para copos e taças. O pufe- baú deixou de guardar panos de prato e jogos americanos, foi para perto da porta e agora é sapateira. O aparador que servia de rack e estava cheio de livros passou a ser... um aparador de verdade. E um movelzinho baixo que compramos para a cozinha perdeu a vez assim que arranjamos um armário alto, muito mais fácil para pegar pratos e copos. Foi para a área de serviço e virou a casa dos aleatórios, como guarda-chuvas e ferramentas. 

E continuamos minimalistas, só que agora temos mais espaço.