terça-feira, 15 de setembro de 2020

Ceguinha no more

Os oclinhos de leitura me contentaram por algum tempo, mas a alegria durou pouco porque 1) o grau não é exatamente o certo (comprei na farmácia por 2 dólares, né); 2) passou de um palmo de distância, o mundo fica embaçado. Então decidi ir à oftalmologista. 

Mil cuidados, um paciente de cada vez na clínica, face shield (que eu tive de tirar para fazer os exames, claro) e máscara. Continuo com três problemas de vista (miopia, hipermetropia, presbiopia) e tudo baixinho (a vista cansada é a mais alta, 1.5 graus). Dessa vez me conformei em fazer óculos bifocais. 

Literalmente. Saí da clínica com os óculos encomendados. Quem cuidou disso foi a médica assistente. Sacou um catálogo e foi me mostrando as opções. Segundo ela, as lentes atuais são muito confortáveis e as pessoas se adaptam em poucos dias. Veremos! (Literalmente.)

Como sou esperta, tinha levado os óculos comprados no ano passado (aqueles que mandei fazer só para miopia e que, portanto, usei bem pouco). Ou seja, a bonita armação pôde ser aproveitada. 

Hoje recebi alguns pares de lentes de contato descartáveis para testar. O curioso é que são lentes de contato progressivas! Modernidades, gente, modernidades. Aparentemente, só não vai corrigir o astigmatismo.   

Ou seja, não tenho mais desculpa: hei de voltar a enxergar como uma águia. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Férias em casa

O tempo voou e as férias chegaram. Ueba!

Férias já foram sinônimo de viagem, mas em 2020 não está rolando. Além de tudo quanto é país estar fechado para as Filipinas, as próprias Filipinas estão fechadas para mim. Até que posso sair da capital, com diversas autorizações, mas prefiro não arriscar. Sabe-se lá os efeitos colaterais que o coronavírus provocaria no meu único pulmão. 

Mas não seja por isso. Pretendo me divertir loucamente vendo seriados e filmes (não contente com Netflix e Amazon Prime, agora tenho HBO Go), lendo livros variados (sendo que estou tentada a organizar tematicamente minha biblioteca de livros digitais e apagar o que não presta. É uma tarefa hercúlea. Veremos), procurando uns cursos on-line para estudar (o que sempre me interessa) e fazendo travessuras na cozinha com o Leo (somos chefs iniciantes, mas a internet está aí pra isso). E tomando uns vinhos: é fácil encontrar neozelandeses e sul-africanos no supemercado. Não sei se são bons, só sei que gosto!

Também quero dar uns passeios pela cidade. A pé, de máscara, e levando o face shield na sacolinha para quando quiser entrar em um estabelecimento. Manila é plana, o que é ótimo, e muitíssimo quente, o que não é tão bom. A sensação térmica chega aos 40 fácil. Então, vamos fazer o que aprendemos em Singapura (onde fomos a um parque lindíssimo e... deserto. Depois de uns minutos, descobrimos a razão: era onze da manhã e basicamente cozinhamos). Na rua, só se for cedinho ou no fim da tarde.   

Vai ser ótimo!

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Tia Patinhas

O assunto consumo tem estado em alta aqui no blog. Parte da culpa é da pandemia e da eterna quarentena em Manila, mas é verdade que meu relacionamento com as compras tem se alterado um pouco nos últimos tempos. 

Pessoalmente, adoro ser pão-dura. Não só utilizo a criatividade para resolver as coisas em vez de adquirir um bem novo, como, quando preciso comprar, simplifico minha vida optando pelo mais barato. 

No entanto, esse modus operandi deixou de ter um objetivo e se tornou um fim em si mesmo. Virei Tia Patinhas total. 

Depois da remoção, o Leo foi me convencendo que gastar parte do nosso próprio dinheiro em bens que nos trouxessem conforto não era pecado, nem ia nos arruinar. 

No começo, foi difícil. Acho que tinha desaprendido a comprar. Sofria mais com a grana gasta do que aproveitava a aquisição. Ano passado, houve um episódio lendário em que fomos a quatro shoppings procurando itens de casa e saímos de mãos abanando. Nesse dia até o Leo, esse santo homem, perdeu a paciência. 

Pouco a pouco, vou me reacostumando. Começo até a achar divertidinho. Mas não esqueço as questões que me ajudaram a eliminar o consumo: não preciso nem quero estar bonita/arrumada sempre, nem tenho de acumular desnecessidades.

Livre e feliz, essa é a ideia. 

Morri e fui pro céu

Descobri que posso ir ao duty free shop do aeroporto de Manila mostrando a identidade diplomática. E mais - que ele anda deserto e em promoção, conforme um colega que esteve por lá. 

Assim sendo, achamos que seria razoavelmente seguro. Planejamos a ida para domingo, o único dia da semana em que o trânsito flui na cidade. Tomamos todos os cuidados: máscara, face shield, Grab com separação de plástico entre o motorista e os passageiros, janelas um tanto abertas para ventilar. É a primeira vez andamos de táxi desde o meio de março - foi até emocionante!

O duty free estava, de fato, às moscas (metaforicamente). Isso eu já esperava - e, se não estivesse, a gente voltava pra trás. A surpresa foi com os preços: altos pra burro! O Baileys, por exemplo, custava o dobro do que... no supermercado perto de casa. 

É bem verdade que, além do original, vi o Baileys Caramel Salé, que não encontro no supermercado perto de casa, e quis me atracar com ele. O Leo teve de me convencer que era uma compra que não valia a pena (foi inusitado: geralmente eu me convenço sozinha).

Os chocolates também estavam caros. Mas, conforme prometido, com lindos descontos: um monte de opções por -70%! Nunca vi isso, gente. Fiquei me sentindo no paraíso: duas coisas que aprecio muitíssimo, chocolate e promoção, de uma tacada só! 

E ainda achei um potinho de crème de caramel à la fleur de sel. Vou misturar no Baileys original que tenho em casa e transformá-lo magicamente naquele que não comprei. 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O terceiro Kindle

 Sou a feliz possuidora de mais um Kindle de teclas. 

Comprei na OLX filipina, que se chama Carousell, pela metade do preço de um novo. O que foi um negoção: para mim, ele é muito mais precioso que um novo, porque é a versão 4, que foi lançada em 2011 e saiu de linha há tempos. Sua grande vantagem é não ser touch: como eu carrego meu(s) Kindle(s) pra todo lado, a tela sensível fazia com eu mudasse de página (ou de livro!) sem querer com frequência. 

A moldura da nova aquisição é preta, o que quer dizer que ela não vai começar a perder a cobertura cinza nos pontos de maior uso, que é que aconteceu com os dois primeiros. Por outro lado, a parte de trás, emborrachada, fica grudenta com o passar do tempo. Este chegou assim, da mesma forma de outro que comprei para meu pai (que também adorou as teclas) no Brasil. Sem problema: cobri de papel contact preto e ficou perfeito. 

Ele foi bem pouco usado, o que dá para reconhecer pelas teclas: não emitem absolutamente nenhum som ao serem acionadas. O Kindle número 1 e o Kindle número 2 fazem um "tec" simpaticíssimo. E exigem uma minúscula fração de força a mais para funcionarem, o 1 mais do que 2. Particularmente, acho sensacional, porque me lembra a experiência de passar páginas em um livro físico. 

Sempre hesito em comprar mais de um exemplar de algo que eu goste, porque em tese a tecnologia avança e versões futuras serão melhores/mais baratas/mais eficientes. No entanto, para meu gosto, isso não se concretizou com os Kindles: cada lançamento é mais semelhante a um celular, mais diferente de um livro de papel. Pode ser ótimo para quem nasceu na era dos dispositivos, mas para mim o Kindle 4 é amor eterno, amor verdeiro. 

É por isso que faço meu estoquinho. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Aqui agora

Juro que eu estava prontinha para abandonar minha megalomania, assim como meus planos furiosos de futuro, e abraçar o aqui e o agora, aproveitando a vida e o que Manila, as Filipinas e a Ásia têm a oferecer. 

Aí veio a pandemia. 

Durante muitos períodos de minha existência, fui feliz mas achava que podia ser MAIS feliz em uma outra situação (outro emprego, outro endereço). O que, sinceramente, era até reconfortador: sempre uma razão para sonhar de olhos abertos. 

Se, de um lado, essa vontade de mudar atrapalha um pouco aproveitar o momento, por outro lado faz com que a pessoa (a pessoa sendo eu) vá atrás das coisas. Pois bem, a pessoa estava finalmente se sentindo preparada para aguardar as coisas caírem do céu quando a quarentena chegou. E ficou. E ficou. 

No começo eu gostei. Agora, 5 meses depois, estou doidinha pra sair de casa e ir a restaurantes de cuja comida eu nem gosto. 


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Rhyka

Comprei maquiagem chique pela internet (na promoção, evidentemente) e fiquei me sentindo muito rhyka. 

Quase uma semana depois, nenhuma notícia da entrega. Concluí: "cancelaram minha compra. Vão me devolver o dinheiro".

Melhor situação: sentir-se rhyka sem gastar nada. 

* * *

No dia seguinte, os produtos chegaram. 

São bonitos e parecem bons, mas duvido que valham o preço cheio. Como aproveitei o desconto, senti-me rhyka e esperta. 

* * * 

Faz bastante tempo que não compro maquiagem além do meu básico: base em pó com protetor e batom universal. No episódio de hoje, foram adquiridos um refil da base... e dois batons ligeiramente diferentes do universal. 

Mas vejam bem, eles têm nomes como VisionAiry Gel e Modern Matte. Como resistir?

E eles estavam na promoção, gente. Na promoção! 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A ceguinha

Até os 20 e poucos, tive muitos graus de miopia e várias lentes de contato. Operei, passei a enxergar como uma águia e vivi feliz para sempre... ou até ano passado. Da última vez que fui à oftalmologista, ela me passou uma receita de óculos bizarra: de um único problema de vista passei a ter três. Agora não sofro só de miopia, mas de miopia, astigmatismo E vista cansada. Tudo em grauzinhos pequenos, mas suficientes para atrapalhar a vida.  

E atrapalhando eles estão. Não mandei fazer os óculos bifocais que a olfta recomendou e fui levando. Aí  cometi um erro idiota no trabalho, uns dias depois fiz de novo - e concluí que era um tumor cerebral. Ou dificuldade em enxergar. Como esse último é mais fácil de resolver, decidi que ia ficar com ele mesmo. 

O ideal, claro, seria voltar a um oftalmologista e pegar uma prescrição nova. Mas já que estamos em tempo de pandemia, me contentei em ir a uma farmácia e comprar oclinhos de leitura.

Foi uma beleza. Agora consigo ver letrinhas. O problema é que a lente para vista cansada ajuda a enxerga de perto, mas embaça todo o resto. O jeito é equilibrá-los na ponta do nariz e olhar por cima deles quando é caso de ver o mundo exterior. Exatamente como mamãe faz...

Estou achando que minha dificuldade com o russo, no fim de 2018, teve a ver (na verdade, a não ver) com o tanto que a professora escrevia no quadro. Passei a entender o que acontece com crianças que são levadas ao oftalmologista pela primeira vez quando suas notas caem sem explicação. É bizarro, mas a gente não percebe que não está enxergando bem. 

Só sente que tem de fazer esforço para entender o quadro-negro e copiar - e que os colegas já terminaram enquanto você está lá tentando extrair sentido do alfabeto cirílico. 

domingo, 5 de julho de 2020

Aniversário de um ano!

Hoje faz um ano que saímos do Brasil. Os meses passaram rápido, mas quanta coisa aconteceu! 

Despachar a mudança + entregar o apartamento + embarcar para Belo Horizonte no mesmo dia. Dizer tchau para a família e os amigos. Voar para o Canadá para uns dias de férias. Chegar a Manila e começar a trabalhar no dia seguinte. Colegas novos, chefes novos, funções novas. Outra língua, outros costumes. Morar em dois hotéis e um apartamento até nos mudarmos para o lar definitivo. Receber a mudança. Organizar um festival de cinema e um mini-campeonato de futebol. Julgar um concurso de fantasias em uma escola infantil. Viajar para Taipei, Seul e Boracay. Receber um upgrade do quarto com direito a "sunset cocktail" todo dia. Passar o natal com os colegas que foram virando amigos. Passar o ano-novo com os colegas que viraram amigos. Descobrir uma dentista ótima do lado de casa. Fazer planos de férias e de trabalho e levar nas fuças pandemia, quarentena e cancelamento de voos. Ajudar muitos brasileiros a embarcarem. Fretar um voo para resgatar os que estavam nas ilhas e não tinham como chegar à capital. Despachá-los para o Brasil e dar um suspiro de alívio. Trabalhar em casa. Trabalhar de manhã em casa e à tarde no escritório. Completar três meses de isolamento. Ufa! 

Sei que vou me lembrar deste ano com muito carinho no futuro. As aflições e perrenguinhos serão esquecidos e só vão ficar as descobertas e alegrias. Não foi um período fácil, mas valeu a pena.   

domingo, 21 de junho de 2020

É uma bruta ansiedade

O único porém da minha estadia nas Filipinas é uma ansiedade terrível. Às vezes melhora (nas férias e nos fins de semana, principalmente), às vezes piora, mas está presente em quase 100% do tempo. 

Um dia conto essa história toda de depressão e ansiedade (ela é longa e, na soma final, mais positiva do que negativa), mas o que temos para hoje é o fato de que o trabalho me deixa muito tensa. 

Racionalmente, sei que não há razão para tal. Sou atenta, cuidadosa, comprometida e "de fácil trato". Só recebi elogios de todos os chefes até hoje. Tiro 100 nas avaliações e ainda ganho observações congratulatórias. 

E é aí que mora o perigo. Quero fazer o melhor possível sempre. E, se não consigo, sofro, me angustio e e me agito. Só que esse comportamento não ajuda necessariamente a conseguir os melhores resultados. Além de me atormentar, também é um tiro pé.  

Meu psiquiatra (sim, tenho um psiquiatra em Manila, e ele é ótimo), me disse que a dificuldade de diminuir o perfeccionismo é que a resposta dos outros a ele é muito positiva. Os colegas de trabalho acham ótimo que eu seja tão dedicada. O Leo volta e meia agradece eu ter passado no concurso do Itamaraty. Ou seja, é um mau hábito reforçado a cada instante. 

Pessoas razoáveis dirão: mas você pode ser uma boa funcionária sem sofrer. E podia ter sido sido aprovada em último lugar das vagas, pois não faria diferença prática. Mas para mim é difícil aceitar isso. Na minha cabecinha, só há duas possibilidades: ser a melhor possível ou não me preocupar - o que equivale a chutar o balde total. 

E tem mais: a minha personalidade está toda construída em torno do fato de ser caxias. Não foi tão difícil largar mão das preocupações com a beleza e passar para o mínimo porque, afinal, eu me acho competente. Com o consumismo foi a mesma coisa.

O que quer dizer é que o plano é reconstruir a minha identidade. Como? Não tenho ideia. 

Mas estou certa de que será a melhor reconstrução de identidade de todas.