sexta-feira, 5 de março de 2021

Pero nada me hará tan feliz como dos margaritas

Um fato curioso das Filipinas é que os drinques, em geral, contém muito pouco álcool. Não sei se é porque muitos asiáticos têm dificuldade em metabolizar a substância ou porque os filipinos, em geral, não são grandes. Só sei que é assim. 

Andei tomando umas margaritas - até em restaurante mexicano - e me frustrando muito. Aí aprendi a fazer em casa e fiquei feliz da vida. Vou até anotar a receita, para o caso de me esquecer no futuro:

- 1 dose de tequila

- 1 dose de suco de limão

- 1/2 dose de triple sec

- muito gelo

Para a versão frozen, tem de ter a manha com o liquidificador: primeiro dar uns pulsos para quebrar o gelo, depois ir aumentando a potência gradativamente. Confesso que ainda não acertei completamente a textura, mas tenho fé que dá próxima vez chegarei lá. 

Molhar as bordas do copo e passar no sal faz parte da receita, mas mesmo sem fica bom, podem confiar. 

Para minha alegria, o triple sec é um licor de laranja docinho e delicioso. Dá até para tomar sozinho. Já para a tequila ainda não achei função melhor do que fazer margaritas.  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mila em Manila

Queria falar de Manila e das Filipinas, mas tenho medo de sair bobagem. Me sinto muito protetora do país - que tem seus problemas e dificuldades, foi colonizado igual ao Brasil etc. etc. Uma hora vou servir em país europeu e aí tenho certeza que vou reclamar de um monte de coisa com tranquilidade. 

Os filipinos são adoráveis. Claro que estou generalizando, mas eles são gentis e amigáveis. Gostam: de estrangeiros. Não gostam: de dizer não. Então às vezes eles falam sim para não desagradar, mas não tem/não é/não vai rolar. 

Tenho a impressão que as Filipinas são o país mais ocidentalizado da Ásia. Primeiro veio a Espanha, de 1521 a 1898. Depois os Estados Unidos, de 1899 a 1946. O resultado é que mais 80% dos filipinos são católicos, e uma das línguas oficiais é o inglês. Isso facilita muito a vida: como diz o Leo, a gente não ofende ninguém inadvertidamente (como na Tailândia, onde não se deve tocar a cabeça das pessoas). Se ofendermos é porque queremos mesmo.

Até o momento não foi necessário. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Demais

Minha cabecinha funciona de um jeito esquisito. É assim: eu posso ser feliz, mas não muito. 

É um sistema de freios e contrapesos. O sabático, por exemplo, foi maravilhoso, mas paguei por ele fazendo uma série de sacrifícios (e valeu muito a pena, recomendo). Já meu emprego atual me permite morar no exterior e ainda me remunera por isso? Não dou conta. 

Talvez seja a educação católica, que acha tão bonitinho sofrer. Talvez meus pais tenham sido muito comedidos com alegrias na minha infância e adolescência: "churrasco à tarde e festa à noite no mesmo dia? Não pode, é demais". Talvez todas as heroínas dos meus livros preferidos tenham que passar por muitos perrengues para alcançarem seus objetivos. 

Enfim. O primeiro passo é descobrir meus mecanismos malucos. O segundo é me convencer que minha vida não precisa ser uma obra de literatura, repleta de tensões e tragédias. Pode ser uma novelinha alegre, com muitas partes boas. 

Uma historinha feliz. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Aos poucos

Faz dois dias que não acompanho as notícias do Brasil na internet, nem abro o Twitter, e meu humor já melhorou um bocado. Um pouco porque as notícias do Brasil têm sido bem ruins; outro tanto devido ao fato de que redes sociais e sites são viciantes, e eu gastava bastante tempo neles. Agora uso esse tempo para frequentar a piscina do prédio, ver RuPaul's Drag Race UK, e ler pedaços de livros no Kindle (não sinto a menor obrigação de ler um livro por inteiro: às vezes a introdução e a conclusão já resolvem).

Sim, o prédio tem piscina, e desde que a pandemia começou (março de 2020), é necessário marcar hora para nadar. O lado bom é que eu e o Leo ficamos com o espaço só para nós; o ruim é que cada apartamento tem direito a apenas 60 minutos, agendados no dia anterior ou no próprio dia. Não dá para sentir uma vontade espontânea de mergulhar. Mas, como a cada dia que passa mais horários vagos aparecem, não é difícil pegar o interfone e conseguir um horário dali a um tempinho. 

Pode ser isso, pode ser o remedinho mágico fazendo efeito. Só sei que estou me sentindo mais eu mesma, e fico muito feliz por isso. Acho que o pior de uma crise de ansiedade ou depressão é não se reconhecer, e não conseguir acreditar que a situação vai mudar, nunca. É bizarro para quem nunca teve a (péssima) experiência, mas para mim funciona assim. 

É verdade que a pandemia não ajudou em nada. Sem quarentena, eu teria viagens, encontros com os amigos, idas a restaurantes e cinemas etc. Quer dizer, atividades legais que ajudariam a me distrair e me divertir. O começo do isolamento foi tranquilo, e acho que para mim foi menos difícil do que para muitos, mas uma hora a gente cansa. 

Enfim. Vamos indo, um dia de cada vez, uma semana de cada vez, um mês de cada vez. Uma hora as coisas vão melhorar. 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Minha ansiedade, uma historinha

Uma das coisas mais difíceis que já fiz foi aceitar tomar remédio contra a ansiedade. 

Precisei de ir a mais de um psiquiatra até encontrar um no qual eu confiasse. Isso e falar com minha mãe, que é a pessoa da área da saúde mais anti-intervencionista que conheço, que me disse: "minha filha, se você está sofrendo, tome sim". 

Isso e uma conversa decisiva com o médico. "Mas se eu não ficar ansiosa, vou ficar desprotegida" (isto é, eu achava que tudo era perigoso. Se eu não soubesse mais o que era perigoso, como ia me defender?). Ele respondeu: "Você já está desprotegida. Viver é um risco."

Isso e o fato de ele ter me receitado um antidepressivo, que não causa dependência (mas causa síndrome de abstinência). 

Isso e o sofrimento profundo que eu sentia toda vez que precisava entrar no carro para ir de Coronel Fabricano para Belo Horizonte, e vice-versa (três horas de viagem, estrada perigosa, curva atrás de curva). E para sair à noite na capital, mesmo se fosse de casa para o aeroporto. 

Tomei, e fui muito bom. Não tive praticamente efeitos colaterais, só perda de apetite e uma leve náusea nos primeiros meses. Bem diferente de alguns testemunhos na internet - quem se dá bem com o remédio, como eu, tende a não registrar a experiência. Depois de um tempo, parei. 

Isso foi em 2009. Corta para 2019. 

Cheguei à Manila depois de mais de 20 horas de voo. O jet lag não passou nunca. Virou uma ansiedade exagerada não episódica, mas 24 horas por dia. Um sofrimento interminável. Logo na primeira semana, furtaram minha carteira e meu passaporte, o que não ajudou em nada. Para completar, meu chefe direto era exigentíssimo. Para completar, só consegui marcar um psiquiatra duas semanas depois da chegada (dando graças a deus que ele atendia em inglês). Para completar, o remédio só começou a fazer efeito um mês depois. 

Foi barra. Como registrei aqui, em certos momentos, se me oferecessem voltar para o Brasil, eu teria voltado. Obviamente, não me ofereceram - eu precisaria pedir. E não pedi, porque sou teimosa e perfeccionista (características que, ironicamente, alimentam a ansiedade).  

Hoje, estou bem. 

Sim, já fiz terapia (várias vezes). Sim, já tentei técnicas de relaxamento. Sim, já meditei (e foi difícil, não consegui transformar em hábito, mas estou disposta a tentar novamente). 

Quando se tem uma dor física, em geral é fácil explicar do que se trata e conseguir tratamento. A dor psíquica é muito mais complicada. São sentimentos ruins, e a gente não sabe se eles são válidos ou não. Se você não pode confiar no que está sentindo, no que pode confiar?

Nessas horas, a racionalidade não ajuda. Eu sabia que estava perfeitamente segura e que tinha competência suficiente para o trabalho. Ainda assim, o coração acelerado, o estômago revirado e sensação generalizada de medo não passavam. 

Até que passaram. 

Passaram tanto que, em dois momentos diferentes, decidi diminuir a dose do remédio por conta própria. É uma péssima ideia, crianças - não façam em casa. Um mês depois eu já estava toda aflita de novo e voltando para a dose inicial. E gastando mais um mês inteiro para voltar ao equilíbrio anterior duramente conquistado. 

E por que estou contando isso aqui? Porque talvez alguém mais por aí esteja enfrentando essa batalha e vai se sentir menos sozinha. Porque uma das características das pessoas ansiosas é querer parecer controladas e serenas, embora estejam borbulhando por dentro (juro que, na vida real, me acham controlada e serena). Porque não é fácil, e é uma porcaria, e desabafar ajuda.

É isso. 

sábado, 30 de janeiro de 2021

As férias de 4 dias

Nossa viagenzinha foi breve e tranquila. Nos sentimos muito seguros: absolutamente todo mundo usando máscara e face shield, exame de PCR negativo até para entrar no aeroporto, aplicativo federal e local para saber onde a gente estava andando, além de vários formulários em papel, tudo para garantir o sucesso de um eventual rastreamento. 

O hotel estava bem vazio. Para grande sorte deles, praticamente todas as construções (exceto os quartos) são vazadas. Bar, restaurante, recepção: tudo aberto e ventilado. 

Chegamos a debater se valia o risco contratar um guia de viagem para nos levar para ver os társios (um dos menores mamíferos do mundo) e as Colinas de Chocolate (uma formação geológica diferentona). Aí o Leo deu um mau jeito nas costas e precisou de repouso. Pronto, foi decidido por nós: não vamos. 

Foram dias muito relaxantes e serenos. As atividades se resumiam a entrar no mar e na piscina, andar na praia, contemplar o horizonte, acompanhar o nascer e o por do sol, tomar o café da manhã gigante (não era bufê, era um pratão feito na hora com opções) e repetir os itens acima até a hora do jantar. 

Dito isso, não colocamos fotos nem fizemos alarde nas mídias sociais. Não queremos incentivar viagens nesses tempos pandêmicos, a não ser que seja com segurança - e segurança está difícil. 

Mas que estou feliz de ter conseguido dar uma escapadinha da selva de pedra - e trânsito - de Manila, isso estou. 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Tomando fôlego

Estamos em quarentena, em diversos níveis de isolamento, há 10 meses. Esta semana, depois de muito pensarmos e pesarmos bem os riscos, decidimos passar uns dias em uma praia filipina. 

Os números da Covid estão razoavelmente estáveis. Desde o meio de novembro de 2020, são menos de 2 mil casos diários. O número total de mortes é pouco mais de 10 mil. Muito bom, se compararmos com o Brasil, com seus 214 mil óbitos: os 106 milhões de filipinos são praticamente metade da população brasileira.

As ilhas estão se reabrindo aos poucos para o turismo. O controle é grande: há um aplicativo de rastreio para entrar no aeroporto, outro ao chegar no destino. Tem de ter um teste de Covid negativo antes de embarcar. 

(Falando nisso: tomamos nossa primeira cotonetada no nariz na quinta-feira. É bastante aflitivo, mas foi menos pior do que eu imaginava. O técnico do laboratório veio em casa, justamente para evitarmos um ambiente cheio de pessoas possivelmente infectadas.)

Aí dá-lhe preencher formulário na internet, receber código de rastreio, baixar aplicativo, registrar com o número que o Departamento de Turismo enviou. O Leo quase teve um troço. 

Aparentemente, agora está tudo certo. No domingo, embarcaremos em um voo curto e bem vazio (20 assentos marcados em um avião com 100 lugares); o plano é usar máscara N-95 (e face shield) do momento em que sairmos de casa até chegarmos ao hotel. Que também está cheio de quartos vagos, e fica em uma praia particular. 

Ou seja, tomaremos todos os cuidados. 

A saúde deve ficar intacta. A superioridade moral de quarentemados eternos é que será arranhada. 

sábado, 16 de janeiro de 2021

2021

Geralmente gosto de fazer retrospectivas e perspectivas na virada do ano, mas dessa vez estou com a impressão de que a mudança foi só no calendário, não na vida real. A rotina continua a mesma e a (falta de) expectativas, também. Até porque os eventos que costumam marcar períodos (natal e ano novo, por exemplo) foram basicamente cancelados. 

Não estou com paciência para tirar lições da pandemia, nem para me dedicar a projetos e "aproveitar" esses meses. Vamos tocando da maneira que dá, vendo muitos seriados de qualidade duvidosa (Too Hot to Handle, Love Island, Love is Blind. Soltos em Floripa não deu para encarar) e passando raiva lendo jornais. 

O Leo me lembrou que 2020 nos decepcionou porque tínhamos muitos planos, viagens e visitas na agenda. Já de 2021 não esperamos nada, então o que vier é lucro. 

Mentira: esperamos sim. No fim do ano, completaremos nosso período nas Filipinas e poderemos sair para o próximo posto.

Ai de 2021 se me tomar essa única alegria. 

domingo, 13 de dezembro de 2020

A bolsa definitiva

Uso uma única bolsa: preta, básica, cruzada no corpo. Ela combina com tudo, é leve e confortável, e nunca perco tempo trocando conteúdos para uma outra. 

Ela só tem um problema: até o momento, os modelos que encontrei (e que estive disposta a adquirir) que correspondiam a essa descrição eram de couro ecológico. Depois de uns dois anos, elas começam a descascar, justo quando estou bem apegada a seus bolsinhos e zíperes, e não tem canetinha preta que disfarce.

Como aconteceu pela terceira vez, decidi abrir a mão e comprar uma bolsa mais duradoura. Convoquei o Leo e lá nos fomos para os shoppings, de máscara, face shield e bem na hora que eles abrem, quando estão quase vazios. 

Como sempre, a variedade na oferta de produtos femininos é de endoidar. Descartei de cara os couros sintéticos e os modelos coloridos. Fiquei de olhos nas de tecido impermeável e materiais naturais, como as leitoras deste blog recomendaram em um post antigo. 

No segundo shopping, o Leo logo achou uma bolsa bonitinha, bem a minha cara (vide abaixo). Coloquei e fui me admirar no espelho. Era de couro verdadeiro, mas fininho - logo, leve. Consultei a etiqueta: 64 dólares. Fiquei na maior dúvida. Embora a bolsa parecesse de boa qualidade, será que valeria tantos dólares?


Nessa hora o Leo me alertou que a gente estava viajando na conversão: não eram 64 dólares, ERAM 640 DÓLARES. Pelo menos resolveu a minha dúvida: não vale! 

Continuamos na labuta e mais um vez o Leo brilhou: em outra loja, achamos essa simpática bolsa: 


Ela é levíssima, tem um monte de zíperes e bolsinhos, alça regulável (a bolsa atual prestes-a-ser-aposentada tem um belo nó na alça, porque foi o jeito de acertar o comprimento), interior de tecido claro (aí dá para enxergar o que está lá dentro) e garantia de 2 anos. Ou seja, botei fé que vai durar para sempre. 

E custou menos que 64 dólares. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

A (longa) reta final

Como a quarentena começou em março em Manila, estamos completando 9 meses cheios de restrições. Pelo menos não foi comprovada nenhuma contaminação por Covid por meio de superfícies, o que nos encorajou hoje a almoçar na mesinha de fora de um restaurante bem vazio (sendo que a única mesa próxima permaneceu desocupada). 

Há 9 meses nossa temperatura é tirada toda vez que entramos e saímos do nosso prédio e de qualquer supermercado; há 9 meses usamos máscara toda o tempo que saímos de casa (face shield: 8 meses); há 9 meses só encontramos os amigos em ocasiões ultraplanejadas, no parque, ao ar livre; há 9 meses não cogitamos sair de Manila, quem dirá das Filipinas. 

Todos esses cuidados funcionaram e estão funcionando: não pegamos Covid, nem tivemos suspeita de termos pegado. Para minha grande sorte, estive de férias bem na época em que a esposa de um colega testou positivo. Quando voltei ao trabalho ele já estava quarentenado. Ou seja, até agora escapamos de fazer o teste do cotonete que cutuca o cérebro. 

Enquanto isso, em vários lugares do mundo as pessoas se comportam como se a pandemia já tivesse acabado. Não estou falando de gente que precisa trabalhar para viver, mas a turma dos passeios, barzinhos e aglomerações. Dá vontade de copiar? Dá. Vamos imitar? Não. 

Pensamos a longo prazo. A longo prazo, ainda vamos viver muitos anos. Não vale a pena perder a paciência logo agora, quando as vacinas estão surgindo, correr o risco de nos contaminarmos e sofrermos sequelas imprevisíveis (a esposa do colega se recuperou, mas tudo ela que põe na boca está gosto de metal, inclusive pasta de dente. E isso é o de menos. Imagina ficar com pulmão comprometido? Eu só tenho um).

Mesmo com as vacinas surgindo, há um longo caminho pela frente. Vai demorar para ela ser aplicada maciçamente na população. Ou seja, estamos projetando mais 9 meses de quarentena, e imaginando que a próxima vez que vamos pegar um avião será na remoção para outro posto, no final do ano que vem. 

Estamos felizes com isso? Não. Estamos conformados? Sim.