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sábado, 17 de setembro de 2022

Covirgem

Mais de dois anos pandemia adentro e eu continuo alegremente Covirgem (e o Leo também, claro). Passar grande parte dela nas Filipinas, com suas inúmeras restrições, ajudou muito. Chegando à Europa, já estávamos acostumados a cuidados básicos como usar máscara em lugares fechados, e assim continuamos. 

Aqui na Suíça não há mais limitação alguma. Em janeiro, ainda era necessário apresentar o certificado de vacinação para entrar em restaurantes, mas logo depois isso caiu, mesmo com apenas 70% das pessoas vacinadas (não é um número ruim, mas também não é ótimo). Dois colegas do trabalho pegaram desde que comecei, provavelmente por causa do atendimento ao público, mas eu continuo firme e forte (e mascarada). 

Esta semana tomei minha quarta dose, o segundo booster. As três primeiras foram em Manila, de graça. Em Zurique tive que pagar 60 francos pela aplicação, o que é um preço baixo pela saúde. Estão dizendo que a vacinação vai voltar a ser gratuita lá por novembro, quando o frio chegar para valer, mas preferimos não esperar. 

O Leo tomou semana passada e o braço incomodou bem durantes uns dias. Depois de fuçar na internet, ele me disse para colocar uma compressa quente antes e gelada depois da agulhada, o que funcionou muito bem - meu braço doeu pouco, praticamente só quando eu encostava nele ou tentava dormir em cima dele. Não escapei de um certo mal-estar e uma febrinha à noite (38º), que usei para fazer um charme. Um paracetamol e uma hora de descanso depois eu estava boa de novo. 

O que mais me preocupada na Covid são os relatos das pessoas que dizem que a memória piorou - a minha, que era excelente, tem dado sinais de cansaço faz uns anos. Gostaria muito de mantê-la assim, boa. Porque senão... o que eu ia dizendo mesmo?

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

O Dilema (ou Não)

Saí do Brasil em julho de 2019. Antes disso, fui a Belo Horizonte me despedir de meus pais e minha irmã mais velha e passei uns dias por lá.

Planos de voltar ao Brasil? Tenho sim, em 2029, quando completo 10 anos de trabalho no exterior e sou obrigada a passar pelo menos um ano em Brasília. Antes disso? Nem a passeio, obrigada. 

E a razão é muito simples: eu tenho 30 dias de férias só. Meus pais são aposentados; tios e tias, também. Minha irmã tem um montão de folgas. Faz muito mais sentido eles irem me visitar, em um lugar que eles não conhecem, ou conhecem muito pouco, e a gente ir passear, do que eu ir para o Brasil, um país no qual morei décadas. 

Sim, terei sempre um belo quarto de hóspedes à espera da família. 

Infelizmente, minha mãe não gostou da ideia. Ela já começou a perguntar "quando é que vou vê-la". Tentei vencê-la pela força dos meus argumentos racionais e ela não discordou ao telefone, mas uma irmã me contou que ela está achando um absurdo que eu fique tanto tempo longe. 

Minha avó também era assim. Se não fôssemos à casa dela, ela não ficava satisfeita. Mas minha mãe ainda está muito nova para essas coisas. Ela é muito ativa, está bem de saúde e viaja bastante (ou viajava, no mundo pré-pandemia).

Eu entendo que minha mãe não fique feliz com minha ausência. Não posso querer que ela aplauda todas as minhas decisões (até queria, mas não rola). Tenho duas opções: voltar ao Brasil para deixá-la contente ou conviver com sua desaprovação nesse ponto (sem briga nem nada, só uns suspiros fundos por parte dela). 

Falei que queria ter um armário no quarto de hóspedes para ela deixar roupas entre uma viagem e outra (como um casaco de frio), e ela se indignou. "Imagina, não faz sentido isso, se você tiver um segundo armário tem de ser para você mesma". 

Mal sabe minha mãe que espero que ela me visite várias vezes por ano. Não aqui, que é o país mais distante do Brasil e que, de qualquer jeito, está em lockdown. Mas no futuro posto, com certeza. Vai ser muito mais perto (até porque não tem como ser mais distante).

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Testando, testando

No começo do ano fiz o teste de Covid em que enfiam um cotonete pelo nariz e praticamente cutucam o cérebro. Deu uma vontade louca de espirrar, mas não foi tão ruim quanto eu imaginava. Mesmo assim, fiquei contente quando soube que dessa vez, eu podia fazer o teste de saliva. 

Achei que era dar uma cuspidinha e pronto. Que nada! Tem de encher metade de um tubinho. E é claro que nessa hora a boca fica seca. 

Tentei pensar em pratos gostosos (para dar água na boca). Pedi dicas para a atendente (que disse para eu massagear os lados do rosto). Procurei vídeo na internet (para descobrir uma massagem mais eficaz). No fim das contas, precisei de uns 20 minutos para fornecer a amostra.

O Leo também sofreu. Acho que com a idade a gente vai ficando menos hidratado. Da última vez que fui à oftalmologista, ela disse que eu tinha desenvolvido a síndrome dos olhos secos e me receitou colírios, um diurno e um noturno. Até que usei, mas eles acabaram e eu nunca mais recomprei. Então ando por aí com meus olhos secos. O mundo está árido mesmo.  

* * * 

O teste não é porque tivemos contato com pessoas infectadas: é para voar para a ilha de Aklan. Aqui nas Filipinas a situação está bem organizada - você pode viajar internamente, mas tem de mostrar o teste de Covid negativo. 

E como vamos viajar, tem um tufão se aproximando das Filipinas e causando chuvas torrenciais. Torço fortemente para que ele mude de trajetória e a gente possa curtir uns dias de praia com um mínimo de sol. 

Mas aceito na chuva mesmo. Uma das vantagens daqui é que, como o clima é bem quente, a chuva não faz a gente passar frio, mesmo que você esteja debaixo dela. 

Só de ver mar e horizonte já fico feliz. 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O vício

O Leo me convenceu a fazer uma lista dos livros que leio. Não ligo para produtividade nesse quesito, porque leio para me divertir (e refletir, e aprender), mas achei a ideia boa, principalmente para lembrar em que época eu estava explorando um ou outro assunto. 

Ontem estava atualizando a lista me bateu a curiosidade de checar quantos livros li em 2020. Para minha surpresa, foram muitos menos do que em 2019 (25%, para ser exata).  Achei esquisito. Em tese, na pandemia, não tive mais tempo para ler?

Não necessariamente: em abril de 2020, quando lockdowns e quarentenas ainda eram uma novidade, descobri o Twitter e os portais de notícia. Pronto, passei a gastar uma quantidade incrível de tempo na internet, naquela ilusão de que estava fazendo alguma coisa, mas na verdade só me frustrando com o que acontecia no mundo e, principalmente, no Brasil. Claro que foi muito importante me informar sobre a Covid-19 e tomar os devidos cuidados, mas isso não leva mais do que alguns minutos por dia. 

Então, mais uma vez, me despedirei do sugadouro das mídias sociais e tentarei usar meu tempo de maneiras mais agradáveis e estimulantes. Um cochilinho, por exemplo, sempre cai bem. 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Vai passar, mas não passa

Nos últimos dias bateu a bad: todos os indícios sinalizam que não vamos poder mudar de posto tão cedo. Por tão cedo, entenda-se... este ano. Talvez só vá rolar no meio de 2022. 

Até então, vínhamos vivendo como se a pandemia fosse acabar loguinho. Quando essa esperança acabou, nos agarramos à perspectiva morar em outro país, que estivesse mais avançado na vacinação e/ou cujos hospitais não estivessem sobrecarregados. Agora, essa esperança também definhou. 

O jeito, se é que tem jeito, é parar de viver como se a pandemia fosse acabar loguinho (pensando só no futuro, afogando as mágoas no chocolate e no vinho) e começar a viver com o que temos para hoje. 

Como, exatamente, ainda não sei. 

* * * 

E hoje meu chefe foi vacinado aqui em Manila, o que me encheu de alegria e esperança. Tudo bem que ele é da categoria seniores e que não vamos ser chamados semana que vem para nossa primeira dose, mas olha, está acontecendo. 

Tem outra: como gostamos muito de caminhar, mas aqui está difícil - não só por causa da quarentena, mas também por causa do calor, umidade, trânsito, barulho e poluição -, compramos uma esteira. Foi o jeito de "pensar fora da caixa": jogar dinheiro no problema.  

Sim, vou botar um vídeo de paisagem na tevê e caminhar olhando para a tela, tentando me convencer que estou passeando. Se meu cérebro for enganado em uns 20%, tá bom. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Dias de folga

Estou tendo uns dias de folga no trabalho. Fico trancadinha em casa, porque os números de casos aumentaram por aqui. Pedimos para entregar comida e compras, e até as idas ao Ayala Triangle (não é bem um parque, é um espaço aberto com grama, algumas árvores e muitos gatos) deixamos de lado por enquanto.   

Não estou reclamando: pedimos comida taiwanesa num dia, libanesa no outro e sempre temos a piscininha e o piscinão para sair de dentro do apartamento. 

A piscininha e o piscinão ficam no nono andar. É um espaço aberto entre andares, na sombra. A parte boa é que não precisa passar protetor solar; a parte ruim é que água do piscinão fica muito fria. Já a da piscininha tende a ser mais agradável. E tem bolhas! É só pedir que o pessoal da portaria liga, por um mecanismo misterioso (se fosse óbvio eu mesma ligava e desligava, claro). Também é possível pedir calor na piscininha, mas tem de ser com quatro horas de antecedência, que é o tempo necessário para a água esquentar. Ultimamente não tem precisado, mas no pico do inverno (em janeiro!) era bem bom. 

Então é isso: casa, piscininha, livros, filmes, séries, drinques e muitas sonecas. Fora a raiva diária com Twitter e sites de notícias do Brasil, a sensação de impotência e a culpa/alívio por estar longe, está tudo muito bem, obrigada. 

sábado, 30 de janeiro de 2021

As férias de 4 dias

Nossa viagenzinha foi breve e tranquila. Nos sentimos muito seguros: absolutamente todo mundo usando máscara e face shield, exame de PCR negativo até para entrar no aeroporto, aplicativo federal e local para saber onde a gente estava andando, além de vários formulários em papel, tudo para garantir o sucesso de um eventual rastreamento. 

O hotel estava bem vazio. Para grande sorte deles, praticamente todas as construções (exceto os quartos) são vazadas. Bar, restaurante, recepção: tudo aberto e ventilado. 

Chegamos a debater se valia o risco contratar um guia de viagem para nos levar para ver os társios (um dos menores mamíferos do mundo) e as Colinas de Chocolate (uma formação geológica diferentona). Aí o Leo deu um mau jeito nas costas e precisou de repouso. Pronto, foi decidido por nós: não vamos. 

Foram dias muito relaxantes e serenos. As atividades se resumiam a entrar no mar e na piscina, andar na praia, contemplar o horizonte, acompanhar o nascer e o por do sol, tomar o café da manhã gigante (não era bufê, era um pratão feito na hora com opções) e repetir os itens acima até a hora do jantar. 

Dito isso, não colocamos fotos nem fizemos alarde nas mídias sociais. Não queremos incentivar viagens nesses tempos pandêmicos, a não ser que seja com segurança - e segurança está difícil. 

Mas que estou feliz de ter conseguido dar uma escapadinha da selva de pedra - e trânsito - de Manila, isso estou. 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Tomando fôlego

Estamos em quarentena, em diversos níveis de isolamento, há 10 meses. Esta semana, depois de muito pensarmos e pesarmos bem os riscos, decidimos passar uns dias em uma praia filipina. 

Os números da Covid estão razoavelmente estáveis. Desde o meio de novembro de 2020, são menos de 2 mil casos diários. O número total de mortes é pouco mais de 10 mil. Muito bom, se compararmos com o Brasil, com seus 214 mil óbitos: os 106 milhões de filipinos são praticamente metade da população brasileira.

As ilhas estão se reabrindo aos poucos para o turismo. O controle é grande: há um aplicativo de rastreio para entrar no aeroporto, outro ao chegar no destino. Tem de ter um teste de Covid negativo antes de embarcar. 

(Falando nisso: tomamos nossa primeira cotonetada no nariz na quinta-feira. É bastante aflitivo, mas foi menos pior do que eu imaginava. O técnico do laboratório veio em casa, justamente para evitarmos um ambiente cheio de pessoas possivelmente infectadas.)

Aí dá-lhe preencher formulário na internet, receber código de rastreio, baixar aplicativo, registrar com o número que o Departamento de Turismo enviou. O Leo quase teve um troço. 

Aparentemente, agora está tudo certo. No domingo, embarcaremos em um voo curto e bem vazio (20 assentos marcados em um avião com 100 lugares); o plano é usar máscara N-95 (e face shield) do momento em que sairmos de casa até chegarmos ao hotel. Que também está cheio de quartos vagos, e fica em uma praia particular. 

Ou seja, tomaremos todos os cuidados. 

A saúde deve ficar intacta. A superioridade moral de quarentemados eternos é que será arranhada. 

sábado, 16 de janeiro de 2021

2021

Geralmente gosto de fazer retrospectivas e perspectivas na virada do ano, mas dessa vez estou com a impressão de que a mudança foi só no calendário, não na vida real. A rotina continua a mesma e a (falta de) expectativas, também. Até porque os eventos que costumam marcar períodos (natal e ano novo, por exemplo) foram basicamente cancelados. 

Não estou com paciência para tirar lições da pandemia, nem para me dedicar a projetos e "aproveitar" esses meses. Vamos tocando da maneira que dá, vendo muitos seriados de qualidade duvidosa (Too Hot to Handle, Love Island, Love is Blind. Soltos em Floripa não deu para encarar) e passando raiva lendo jornais. 

O Leo me lembrou que 2020 nos decepcionou porque tínhamos muitos planos, viagens e visitas na agenda. Já de 2021 não esperamos nada, então o que vier é lucro. 

Mentira: esperamos sim. No fim do ano, completaremos nosso período nas Filipinas e poderemos sair para o próximo posto.

Ai de 2021 se me tomar essa única alegria. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

A (longa) reta final

Como a quarentena começou em março em Manila, estamos completando 9 meses cheios de restrições. Pelo menos não foi comprovada nenhuma contaminação por Covid por meio de superfícies, o que nos encorajou hoje a almoçar na mesinha de fora de um restaurante bem vazio (sendo que a única mesa próxima permaneceu desocupada). 

Há 9 meses nossa temperatura é tirada toda vez que entramos e saímos do nosso prédio e de qualquer supermercado; há 9 meses usamos máscara toda o tempo que saímos de casa (face shield: 8 meses); há 9 meses só encontramos os amigos em ocasiões ultraplanejadas, no parque, ao ar livre; há 9 meses não cogitamos sair de Manila, quem dirá das Filipinas. 

Todos esses cuidados funcionaram e estão funcionando: não pegamos Covid, nem tivemos suspeita de termos pegado. Para minha grande sorte, estive de férias bem na época em que a esposa de um colega testou positivo. Quando voltei ao trabalho ele já estava quarentenado. Ou seja, até agora escapamos de fazer o teste do cotonete que cutuca o cérebro. 

Enquanto isso, em vários lugares do mundo as pessoas se comportam como se a pandemia já tivesse acabado. Não estou falando de gente que precisa trabalhar para viver, mas a turma dos passeios, barzinhos e aglomerações. Dá vontade de copiar? Dá. Vamos imitar? Não. 

Pensamos a longo prazo. A longo prazo, ainda vamos viver muitos anos. Não vale a pena perder a paciência logo agora, quando as vacinas estão surgindo, correr o risco de nos contaminarmos e sofrermos sequelas imprevisíveis (a esposa do colega se recuperou, mas tudo ela que põe na boca está gosto de metal, inclusive pasta de dente. E isso é o de menos. Imagina ficar com pulmão comprometido? Eu só tenho um).

Mesmo com as vacinas surgindo, há um longo caminho pela frente. Vai demorar para ela ser aplicada maciçamente na população. Ou seja, estamos projetando mais 9 meses de quarentena, e imaginando que a próxima vez que vamos pegar um avião será na remoção para outro posto, no final do ano que vem. 

Estamos felizes com isso? Não. Estamos conformados? Sim.   

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Férias em casa

O tempo voou e as férias chegaram. Ueba!

Férias já foram sinônimo de viagem, mas em 2020 não está rolando. Além de tudo quanto é país estar fechado para as Filipinas, as próprias Filipinas estão fechadas para mim. Até que posso sair da capital, com diversas autorizações, mas prefiro não arriscar. Sabe-se lá os efeitos colaterais que o coronavírus provocaria no meu único pulmão. 

Mas não seja por isso. Pretendo me divertir loucamente vendo seriados e filmes (não contente com Netflix e Amazon Prime, agora tenho HBO Go), lendo livros variados (sendo que estou tentada a organizar tematicamente minha biblioteca de livros digitais e apagar o que não presta. É uma tarefa hercúlea. Veremos), procurando uns cursos on-line para estudar (o que sempre me interessa) e fazendo travessuras na cozinha com o Leo (somos chefs iniciantes, mas a internet está aí pra isso). E tomando uns vinhos: é fácil encontrar neozelandeses e sul-africanos no supemercado. Não sei se são bons, só sei que gosto!

Também quero dar uns passeios pela cidade. A pé, de máscara, e levando o face shield na sacolinha para quando quiser entrar em um estabelecimento. Manila é plana, o que é ótimo, e muitíssimo quente, o que não é tão bom. A sensação térmica chega aos 40 fácil. Então, vamos fazer o que aprendemos em Singapura (onde fomos a um parque lindíssimo e... deserto. Depois de uns minutos, descobrimos a razão: era onze da manhã e basicamente cozinhamos). Na rua, só se for cedinho ou no fim da tarde.   

Vai ser ótimo!

domingo, 14 de junho de 2020

De volta ao trabalho presencial (Diários VI)


Desde segunda-feira passada, dia 7 de junho, voltei a trabalhar presencialmente. Quer dizer, meio período - no outro meio período, continuo em home office. 

A ideia é fazer um revezamento e menos gente se encontrar (e eventualmente se contaminar) no escritório. Mas é meio bizarro, para dizer a verdade. Minhas manhãs não rendem tanto e acabo esticando o horário presencial. Devia sair às 5 da tarde, mas ando saindo às 6. Ou 7. 

O prédio e nosso andar estão todos trabalhados nas medidas de segurança. Tapete desinfetante, álcool gel, medição de temperatura. Só 5 pessoas no elevador. Mais tapete desinfetante, mais álcool gel. Máscara o tempo todo. 

As ruas da região ainda estão bem vazias. O transporte público está voltando aos poucos, teoricamente mantendo as regras de distanciamento social. Isso quer dizer que muita gente ainda não consegue chegar aonde precisa. 

Por duas vezes, acompanhei o Leo ao supermercado (agora pode). Tentamos ir em horários que estariam vazios (e acertamos). Fizemos compras rapidinho, não fiquei cutucando os produtos (que é o que eu costumava fazer, pré-pandemia) e voltamos para casa. 

A sensação que tive era de estar voltando de uma longa viagem. O isolamento social em Manila começou em 15 de março, e desde então estive obedientemente em casa, saindo só para umas poucas e necessárias idas ao escritório para consultar documentos. Agora vejo a cidade com olhos de quem retorna. 

Não é que eu tenha sentido muita falta, pois estive bem e tranquila. Mas fiquei feliz por voltar.

* * * 

Estamos em EMGQ (quarentena reforçada modificada geral). Vamos ver se nos próximos dias passamos para a fase seguinte ou voltamos um passo atrás. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Diários do corona, parte II

Posso falar? Adoro ficar em casa. Então, para mim, passar a quarentena quietinha no apartamento não é problema, é solução.

Sei que para muita gente ficar em casa não é uma opção; que há quem viva em lugares precários e minúsculos, ou que nem tenha onde morar. Tenho consciência do meu privilégio.

Dito isso, há quem tenha o mesmo privilégio e esteja detestando o isolamento social.

Estamos em um daqueles raros momentos em que os introvertidos se sentem realizados como pessoas (nem consigo pensar em outro, para falar a verdade). O lockdown está sendo nosso carnaval e nossa micareta. Uma curtição!

É bem verdade que somente nos últimos dias estou, de fato, aproveitando o lar. Consegui uns dias férias depois de um mês trabalhando feito doida (e sem ver o tempo passar). Agora é que poderei tirar várias sonequinhas ao dia, acordar e dormir na hora em que bem entender, ler um montão de livros e ver um montão de séries, ligar prazamiga, escrever no blog. E, talvez, começar a sentir falta da rua.

Veremos.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Diários do corona, parte I

As últimas semanas foram complicadas para todo mundo (e todo o mundo). Aqui nas Filipinas, a quarentena começou no dia 12 de março e no dia 16 já virou quarentena reforçada, com praticamente tudo fechado e transportes todos suspensos.

Só uma pessoa da família pode sair de casa, para comprar comida e remédios. Essa pessoa é o Leo, que sabe chegar aos lugares e tem força para carregar sacolas pesadas. Ele vai ao supermercado uma vez por semana. Quanto a mim, estou em casa desde então, trabalhando sem parar, atendendo os turistas brasileiros que ficaram retidos nas ilhas quando os voos domésticos foram cancelados - e muitos internacionais também. 

Não teve feriado, fim de semana ou fim de expediente. Foram muitas aventuras, que incluíram fretar um avião para resgatar os brasileiros em sete regiões diferentes e que decolou sem ter permissão para pousar nos dois últimos (sim, elas foram conseguidas durante o voo) e uma quebra de isolamento para ir ao Aeroporto Internacional de Manila embarcar 34 brasileiros (de máscara e com muito álcool gel). A sorte é que os colegas de trabalho são ótimos e estivemos todos juntos nessa empreitada. Os repatriados chegaram ao Brasil neste domingo de Páscoa, então as coisas no trabalho estão mais calmas. 

Se der tudo certo, na quinta-feira saio de férias. Como a quarentena foi estendida até 30 de abril, não vou poder sair do país, da cidade ou de casa, e vai ser ótimo. Estou precisando é de cansar de descansar. 

Em suma, eu e o Leo estamos muito bem. Temos casa confortável para nos isolar, internet, tevê a cabo, livros, dinheiro para comprar comida. Temos um ao outro. Estamos tomando muito cuidado para não nos contaminarmos, nem contaminarmos ninguém. Tentamos ajudar os entregadores de comida com gorjetas gordas, os funcionários do prédio com produtos de higiene, o Projeto Bantu com doações, os vizinhos com pequenos favores. É uma gota no oceano, mas é melhor do que nada.