quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Y ahora? Español

Lembram que em junho fiz prova de nivelamento de francês? Pois então, naquela época aproveitei e fiz de espanhol também.

Estudei espanhol durante uns meses em 2003, em um curso daqueles que se ganhava por telefone. (Ligavam para sua casa, diziam que você tinha sido sorteado e que só tinha que pagar o material. Achei que era golpe, mas estou tentando descobrir a pegadinha até hoje: de fato só paguei o material, e de fato teve aula.)

Depois não fiz outros cursos, por pura teimosia: quando morei em Coronel Fabriciano, no interior de Minas, havia uma escola de idiomas a um quarteirão da minha casa. Eles ameaçavam abrir turmas de francês a cada semestre e nunca abriam, mas espanhol sempre tinha. Só que eu não queria espanhol, queria francês. No fim das contas não estudei nenhuma das duas. Que boba.

Mas a gente sempre tem um pouco de contato com a língua espanhola, né? Desde então, li livros, escutei música (Shakira, Shakira), passeei em países hispânicos e, no teste de nivelamento, blefei o suficiente para me colocarem no nível intermediário 1.

Fazer o teste veio bem a calhar: vai ter curso intensivo no começo do ano (aulas todos os dias, do meio de janeiro até o início de fevereiro), e só vai poder se inscrever quem já fez o nivelamento.

Meu nível de espanhol não é beeeem o intermediário, pero no hay problema: tenho até o meio de janeiro para estudar, oras.

Depois do russo, vai ser um alívio.

sábado, 8 de dezembro de 2018

A loucura dos livros

Desde criança eu sou a doida da leitura. Passava todos os dias na biblioteca do colégio para pegar um livro, e no dia seguinte já estava trocando. Aproveitava e lia também os que minha irmã mais velha pegava. O resultado é que liquidei todo o acervo da biblioteca. Isso não foi muito bom para minha vida social, mas ótimo para minhas notas.

Quando entrei na faculdade de direito, confesso que não achava a biblioteca jurídica lá muito atraente. Logo descobri uma livraria próxima à faculdade que vendia livros e revistas estrangeiras a preços módicos (áureos tempos da paridade com o dólar). Pronto, passei a ler em inglês também.

Não preciso dizer que, com o surgimentos dos leitores eletrônicos, a loucura dos livros foi ao ápice. Há uma quantidade incrível de livros pela internet. Um dos meus hábitos é consultar minhas fontes diariamente para ver se surgiu alguma novidade interessante. Ou vagamente interessante.

Com toda essa riqueza, fiquei muito exigente. Comecei a ler, não gostei? Apago do Kindle na hora (mas mantenho uma cópia no computador, né, porque vai que depois preciso).

Com toda essa riqueza, fiquei meio distraída. Leio vários livros ao mesmo tempo, esqueço o nome dos autores, confundo títulos. Às vezes um único capítulo me deixa satisfeita. Às vezes paro no meio e nunca mais volto.

Esse método (que método?) talvez não seja o melhor para a aquisição de conhecimento. Mas me divirto horrores.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Acabou! O curso de russo. Por enquanto.

Foram só dez aulas - duas por semana, durante um mês e pouco -, e eu ainda perdi as três primeiras. Então não posso reclamar (muito) do fato de eu não estar lendo as grandes obras da literatura russa no original. Mas confesso que estou um pouco frustrada, sim.

Minha maior dificuldade foi (é!) o alfabeto cirílico. Aprendi todas as letras, mas ainda me sinto analfabeta. Diante de uma frase, tenho de ir decifrando caractere por caractere, o que é trabalhoso e demorado. Quando escuto um palavra nova e quero anotar, então, é outro sofrimento. Enquanto brigo com cada hieróglifo russo, a professora já despejou mais conteúdo.

Como eu disse, senti muita vontade de matar umas aulas e/ou largar o curso pelo meio. Finalmente compreendi aqueles colegas de turma que não conseguiam acompanhar uma matéria e perdiam totalmente o interesse - não faziam mais dever, não chegavam na hora, não estudavam para a prova. De fato, quando perdemos (ou nunca encontramos!) o fio da meada, aprender se torna complicado e sacrificante.

Mas resisti: fui direitinho a todas as aulas, busquei material alternativo, estudei em casa. De falta de boa-vontade não podem me acusar.

O curso terminou hoje com uma prova oral em que maltratei o russo com a desumanidade de um espião da Guerra Fria. A professora ajudou e acho que ela vai aprovar todo mundo, mas não saí feliz, não. 

Estou me consolando com o fato de que, hoje, sei mais do que sabia antes do curso (antes do curso eu sabia basicamente zero, ноль). O plano é continuar estudando por conta própria e, se no próximo semestre russo for uma das línguas oferecidas, estou dentro.

Mas não serei a coleguinha exibida, prometo.

* * *

Antes de sair para Munique, consegui fazer uma aula de alemão e achei bem difícil. Foi só começar a estudar russo para perceber que, na verdade, alemão é moleza. Alfabeto latino! Parentesco com o inglês! Só quatro casos de declinação!

Ou seja, preciso urgentemente de uma aula de mandarim. Perto dos ideogramas chineses, o alfabeto cirílico vai ficar facinho, facinho.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Coincidências

Voltei de Munique trazendo um documento, perdido no aeroporto, de uma pessoa que mora em Brasília. Ontem o moço me ligou para combinarmos a entrega e me perguntou, para minha grande surpresa, se não havíamos sido colegas de faculdade.

Não reconheci nem a foto nem o nome no documento, mas, quando joguei os dados na internet e espremi os neurônios, resgatei umas lembranças do fundo do baú. Não é que estudamos juntos mesmo?

Aí fui calcular há quanto tempo isso aconteceu. Pois bem, nossa turma se formou há 20 anos. Duas décadas! E tem outra: depois da formatura mudei de área, de cidade(s) e de emprego. Perdi totalmente o contato com a turma da faculdade. Não é à toa que não liguei o nome à pessoa (ou me lembrei, do nome ou da pessoa).

Mas achei uma coincidência legal. É muito interessante encontrar pessoas do passado. Fico curiosa para saber como a vida delas seguiu. Deu tudo certo? Estão onde gostariam de estar? Curtem trabalhar na área? Houve surpresas na jornada?

Tem um elemento de caminho não tomado, sim. Se eu tivesse seguindo aquele roteiro, como eu estaria hoje? Mais ou menos feliz? Mais avançada na carreira, isso com certeza (pelo menos não mais em estágio probatório!).

Cá pra nós? Desconfio que meu nível de satisfação seria parecido. Há pesquisas mostrando que as pessoas têm um ponto mais ou menos fixo de felicidade e tendem a retornar para ele, mesmo quando coisas muito boas (ganhar na loteria) ou muito ruins (sofrer um acidente) acontecem. A gente vira pra lá e pra cá e tenta tomar as melhores decisões, mas na maioria das vezes não escolhemos entre uma opção desastrosa e uma sensacional, mas entre possibilidades razoáveis, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

Amanhã reencontro o ex-colega para devolver o documento. Vamos ver o que ele diz do rumo que tomou.

* * *

O ex-colega não estava exuberantemente feliz, mas me pareceu tranquilo e alegre. Tem um ótimo emprego, uma esposa, duas filhas. Contou que passou da fase "vou fazer do Brasil um lugar melhor" para a fase "faço meu trabalho com dedicação, mas sem ilusões".

Fiquei contente de saber que ele está bem.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A segunda parte do show

Quando completei 40 anos, não tive crise de meia-idade, mas passei a ter consciência da minha própria mortalidade. Partindo do pressuposto de que viverei razoavelmente bem até os 80 (e aí partir estarei pronta para embarcar no programa de eutanásia mais próximo se a saúde falhar), agora estou na segunda e última parte da minha vida - sem esquecer que nessa fase o tempo parece passar cada vez mais rápido.

Tenho lido livros e artigos sobre maturidade e velhice. Ainda me sinto bem jovem, até porque meus colegas de concurso são bem novinhos e tenho convivido muito com eles, mas gosto de saber o que vem pela frente. Muita informação não é novidade: é importante se manter ativa, evitar excessos, cultivar amizades, dormir bem. Outros dados são inesperados: pesquisas mostram que a felicidade da maioria das pessoas cai entre 20 e 40 anos, e começa a subir de novo aos 50. Tem a ver com o estresse de se estabelecer economicamente, construir um patrimônio e cuidar dos filhos, que só se tornam independentes após a adolescência.

Como não tenho filhos, não estou nem um pouco estressada (e talvez minha felicidade após os 50 não aumente tanto, já que também não terei netos). Mas acredito que, se não tivesse mudado de emprego, estaria reavaliando minhas escolhas. É isso que quero? Meu trabalho tem significado? Fico feliz com a ideia de seguir essa carreira por mais 20 anos? (Quando comecei a trabalhar, a perspectiva era me aposentar aos 55, mas acho que não vai rolar. Estou contando com uns 65.)

Acho que a vantagem de ficar mais velha é ficar mais pé no chão. Não dá mais tempo de virar astronauta ou estrela de Hollywood. Os limites ficam mais claros.

As possibilidades também.

domingo, 25 de novembro de 2018

Pra cá e pra lá (com muita ou pouca bagagem)

Uma das maneiras mais fáceis e recompensadoras de embarcar no minimalismo é imediatamente antes de uma mudança. Se for para um lugar menor, melhor ainda. Fazer uma seleção do que realmente importa não só facilita o transporte dos objetos como a mudança de cenário faz com que você nem sinta a falta deles. Casa nova, vida nova!

Logo, imaginei que pessoas para as quais a mudança de endereço é um estilo de vida (isto é, meus colegas de trabalho) seriam craques nisso. Se de tantos em tantos anos você tem de empacotar tudo e partir para um destino totalmente diferente, não é prático carregar pouca coisa? Tanto para não se preocupar com atrasos na mudança e com danos nos móveis como para ter espaço, na casa e na alma, para novos hábitos e estilos de vida. Móveis de varanda não serão muito usados na Sibéria. Equipamento de esqui vai ficar encostado na Índia. Eletro-eletrônicos provavelmente vão exigir tomadas e voltagens diferentes. E por aí vai.

Perguntei a uma colega que cuidava de transporte de bagagem se os contêineres da galera iam ficando menores à medida em que a carreira progredia. Para minha surpresa, ela disse que não. Ao contrário: quanto mais anos de trabalho, mais coisa a pessoa juntava.

Fiquei sem entender até que, um dia, tive um insight: se a pessoa está cada par de anos em um país, ter em torno de si objetos familiares pode dar um sentido de continuidade e segurança. Principalmente para cônjuge e filhos, porque o servidor do serviço exterior tem pelo menos sua carreira para se agarrar psicologicamente. O acompanhante tem de se virar para (re)encontrar sua identidade a cada novo posto.

Dito isso, acho que existe uma grande distância entre possuir apenas 50 objetos e acumular pilhas de bens. Imagino que seja muito fácil adquirir obras de arte, artesanato, louça, roupa e equipamentos toda vez que a pessoa se instala em um território diferente. Tanta novidade! Tudo tão bonito e colorido! Mas imaginem o trabalho e a dor de cabeça a cada realocação.

É verdade que, de 2013 a 2015, ficamos sem casa por 26 meses, então eu não podia juntar coisas, ponto. Minha próxima mudança vai ser diferente: iremos para um lugar fixo onde ficaremos por pelo menos dois anos. Ou seja, vai ser possível (e até fácil!) me deixar seduzir pelo consumo e pela acumulação.

Mas acho que não vai acontecer, viu? Voltamos para Brasília e mantivemos nosso estilo de vida simples e desapegado. Pensamos seriamente em, quando formos removidos, alugarmos um apartamento mobiliado e levarmos pouquíssima coisa do Brasil.

Só paçoquinhas e cachaça.

sábado, 24 de novembro de 2018

Bodas de prata

Eu e Leo fizemos 25 anos de namoro + casamento em maio deste ano. Continuamos um casal fofinho, que sente saudades um do outro se passa um dia sem se ver (desculpaê).

Uma amiga perguntou qual era o segredo do sucesso e eu, após matutar um tanto, respondi: encontrar a pessoa certa. E como você encontra a pessoa certa?, ela indagou. Bem, no meu caso ele bateu na minha porta, confessei (é verdade: o Leo foi colega de faculdade da irmã mais velha e foi fazer um trabalho em grupo na minha casa).

Ela disse que eu estava de sacanagem, mas juro que eu não estou escondendo o ouro. O Leo é a pessoa certa para mim, e eu a pessoa certa para ele. Começamos a namorar cedo (eu tinha 17!) e fomos crescendo na mesma direção (em vez de cada um pra um lado, o que às vezes acontece). E ainda demos a sorte de casar e ir morar longe das famílias - elas são ótimas, mas aprendemos a contar 100% um com o outro, já que não dava para ter uma discussãozinha e dizer que ia dormir na casa da mamãe.

Outra coisa que funcionou pra gente foi não ter filhos. Sei que muita gente tem e os ama muitíssimo, mas não dá para negar que eles são fonte de preocupação e stress (e orgulho, e alegria, e realização também). Abrir mão de crianças nos deixa livres, leves e soltos para ter uma vida de luxo e ostentação (viajar a qualquer hora, almoçar brigadeiro, mudar de carreira, não ter carro) e dar toda nossa atenção um ao outro. De um de nós morrer cedo, o que ficar está lascado? Está. Mas resolvemos correr o risco #vidaloka.

Então, acho que basicamente demos uma sorte danada.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Aula de russo (ou de humildade)

Como estava em missão, perdi as 3 primeiras aulas do curso de russo básico. Estudei o alfabeto cirílico por conta própria e cheguei toda pimpona, crente que ia abafar.

Só que não. Aprendi (mais ou menos) o alfabeto cirílico em letra de forma, e a professora só usa cursiva. Passo metade da aula tentando decifrar que diabos está escrito no quadro-negro, e a outra metade anotando desesperadamente o som das palavras que ela fala. Chega uma hora que basicamente ergo os braços para o céu e desisto de ambas as coisas. Enquanto isso, a professora começa a ensinar conjugações (!!!).

Para completar, um dos colegas leva muito jeito e/ou já estudou russo antes, ou seja, responde todas as perguntas da professora enquanto eu arregalo os olhos. Reclamei com o Leo que o moço makes the rest of us look bad, e o Leo riu. E acrescentou: "bem-vinda a como a maioria de nós se sente."

Confesso que costumo ser a queridinha do professor nas aulas de línguas. Gosto de idiomas e sou caxias, então faço os exercícios, pratico em casa, entrego as redações. Aí acabo me saindo melhor do que alunos que têm menos interesse. Mas, nesse curso, nem dever de casa tem! Vocês podem imaginar a minha frustração.

Outro colega também perdeu o começo do curso. Ele foi a uma aula e depois não apareceu mais. Pelo jeito percebeu que ia ser muito sofrimento.

E é. Sinto vontade de desistir também? Sinto. Mas cheguei à conclusão de que continuar frequentando as aulas vai ser bom para mim. Além de aprender um pouquinho de russo (mais do que aprenderia se não fosse!), espero introjetar o fato de que não ser uma das melhores alunas da sala não mata ninguém.

Só de raiva.

domingo, 4 de novembro de 2018

De volta!

Nem acredito que estou de volta à minha casinha!

Ficamos muito bem instalados em Munique (o chão do banheiro era aquecido; a luz do hall,  automática; a roupa de cama, deliciosa). Ou seja, não senti falta do nosso apartamento. Mas uma casa montada pela gente, com tudo que precisamos e gostamos, é outro nível de conforto, né?

O período na Alemanha foi ótimo. Tão bom que me reconciliei com o país: se aparecer Berlim, Frankfurt ou Munique no meu futuro, irei bem contente. Só não vai mais para o alto da lista porque a língua não é mais fáceis. Aliás, tomei um pito (em inglês) de uma senhora no ônibus por não falar alemão: segundo ela, já que eu ia ficar dois meses por lá, tinha que ter me virado e aprendido alguma coisa. Respondi que ela tinha razão. Meu ponto chegou e eu desci, sem ter tido a oportunidade de explicar que eu gostaria de ter estudado um pouquinho, sim, mas que o trabalho não deixou.

Entre bretzels, cerveja, sorvete e chocolate, a dieta low-carb foi para o espaço, sem o menor drama. Agora estou avaliando se vale a pena voltar para ela. Ganhei de volta os 2 quilinhos e pouco que eu tinha perdido, mas também lembrei como carboidratos são gostosos. E como não é questão de saúde, mas de vaidade mesmo, talvez ela fique guardada para quando as roupas de trabalho ameaçarem não caber mais de novo.

Estou animadíssima para voltar ao trabalho, encontrar os amigos, contar as novidades, distribuir chocolates. E terça-feira tenho aula de russo! O alemão não deu certo, o espanhol também não, mas acho que agora vai.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Um turbilhão de emoções

Minha primeira missão está sendo uma montanha-russa de sentimentos, dos melhores aos piores, tudo junto e misturado. Tem a alegria de estar trabalhando no exterior, a expectativa em conhecer a realidade do posto, a insatisfação com algumas tarefas mecânicas, o desafio de organizar as eleições. Junte-se a isso um ambiente meio tenso, colegas que não se bicam, uma chefia que está de saída e com problemas de saúde... dá pra imaginar a confusão, né?

Tenho trabalhado muito, com vontade. Foram poucos os dias em que não fiquei até mais tarde. Tenho aprendido bastante, tanto sobre as funções do ministério fora do Brasil quanto sobre a dinâmica interpessoal nos postos. Tenho lidado com ansiedade em excesso, tentando controlar coisas sobre as quais não tenho o menor controle. E tenho passeado muito - todos os fins-de-semana em que não trabalhei. A Baviera é uma região linda.

O resultado é que os dois meses na Alemanha voaram. Nem acredito que já chegou a última semana.